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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

MUDANÇA DE ÉPOCA

Mudança de época e espiritualidade
Antonio Carlos Ribeiro*



Vivemos uma época de mudança ou uma mudança de época? Conquanto a pergunta pareça um simples jogo de palavras, na verdade trata de realidades diversas e com desdobramentos ainda mais difíceis e complicados de entender, aceitar e nos adaptar. A primeira, a época de mudança, aponta para uma circunstância corriqueira em nossa vida. Vez ou outra estamos envolvidos em mudanças. Mudamos da nossa casa, nos transferimos para outra escola, adquirimos um carro novo, conseguimos um novo emprego e participamos das celebrações em outra comunidade.

Já a mudança de época, a segunda, é uma situação de profundas transformações, que se refletem em todas as esferas da vida dos povos, com um conjunto de fenômenos acontecendo em quantidade e intensidade, num momento que a nova física, do austríaco Fritjof Capra, chama de Ponto de Mutação. O processo desencadeado provoca mudanças, mesmo aquelas tidas como inimagináveis, cujos efeitos interferem diretamente no projeto da civilização do qual somos parte, produz alterações nas formas de nos relacionarmos uns com os outros, com a natureza, com os cosmos, e afeta até mesmo a maneira como compreendemos o mundo, nossa existência nele e o Absoluto, que nossa razão baseada na Revelação chama Deus e entende como sua origem.

Admitir a mudança de época é fundamental para desenvolver uma espiritualidade própria do tempo, da mesma forma que a racionalidade, a emotividade, a sensibilidade e a percepção cultural da realidade. Sem esses elementos não podemos crescer como pessoas, nem estabelecer trocas frutíferas, nem nos comunicar com o mundo à nossa volta - do círculo de amigos às comunidades afetivas virtuais - e, nessas, a comunhão com os de perto e os de longe, uma novidade que essa época complexa (que tem sido tecida junto há algum tempo, como nos ensinou o sociólogo Edgar Morin) nos traz.

O dramático é quando algumas instituições políticas, econômicas, culturais e até religiosas, se sentem ameaçadas e começam a preparar a resistência à mudança de época. Ficam entrincheiradas, como quem junta alimentos e armamentos para a guerra; ou se fecham às relações humanas, como quem seleciona aqueles com quem contar na luta; ou ainda, aplicam o dualismo à mudança em andamento, como quem separa os que estão comprometidos com a ordem vigente e os insensatos da nau à deriva. E, pior, como mostrou o teólogo Raimon Panikkar, diante da dificuldade de negociar com a realidade e movidos pelo medo de ser engolidos, decidimos coagi-la, para que ela ceda a nossas exigências.

Não nos assustemos se as grandes maiorias rejeitarem o seguimento do Cristo pobre e itinerante na tecitura do risco e só ficarem sensíveis a essa época certas minorias abraâmicas, órfãs das instituições religiosas e sociais, dispostas a mudar mesmo em meio às dualidades, em busca de uma visão prospectiva da história e uma opinião pública global. Sem monarcas absolutos, nem proprietários da salvação e nem a casta nobre (culta ou endinheirada), cujo mundo é o de uma economia sem ética, governos com poderes arbitrários e cidadãos com direitos limitados, em se possa mercantilizar as relações pessoais, assim como o capital.

Outra perspectiva é construir uma sobremodernidade em resposta à modernidade, à qual a religião adentrou depois de cinco séculos, disposta a assegurar privilégios e garantir sua sobrevivência. Para tanto é preciso resgatar o Humanismo, a Renascença e a Reforma protestante, e suas contribuições à modernidade. Se nossas lutas produzem saber sobre o humano, se somos tocados pela exuberância artística e se nos dispomos até a romper, para nos sentirmos diferentes e iguais, se rejeitamos a tutela institucional, em termos de religião, então temos coragem para a mudança de época e de dar nossa contribuição em favor de todos, simplesmente por termos sido capazes de fazer isso por nós mesmos e pelas pessoas a quem queremos bem!

* Teólogo luterano e jornalista, doutorando em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio)

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