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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Vítimas da Prisão.



 

HEBERSON OLIVEIRA é um nome para não ser esquecido. É um brasileiro de Manaus.  Um pobre entre tantos que foi acusado e preso sem prova material e testemunhal que o incriminasse. Tudo depende do lugar social da pessoa. Os que praticam crimes comprovadamente conseguem evitar a prisão. O pobre, por ser suspeito, já tem motivo suficiente para ir à prisão.
Essa figura emblemática foi presa em novembro de 2003 e foi solto em maio de 2006. Dois anos e sete meses depois de preso, foi julgado e finalmente considerado inocente. Essa realidade de um longo tempo na condição de provisórios   está presente em todos os estados do Brasil.
Se a injustiça já não fosse suficiente, o estado brasileiro o matou, acabou com a vida desse brasileiro. Ele foi estuprado pelos xerifes da cadeia e contraiu o vírus da AIDS.
Ele diz: “Fui violentado lá dentro. Agora essa doença vai me acompanhar pelo resto da vida. Estou condenado à morte. A justiça roubou minha vida.”
A cena do estupro é algo muito comum e até facilitada para aqueles que são acusados de estupro. A justiça de fato lhe roubou a vida, foi a causadora de suas desgraças por lhe ter mantido na prisão de forma injusta, sem provas, é tanto que lhe absolveu sem provas, tarde demais. Ele é vítima também da falta de assistência do estado brasileiro que não cumpre com as obrigações em relação à dignidade do ser humano.
Esse brasileiro de 30 anos quando preso, anda se arrastando como se fosse um ancião, jogado nas ruas de sua cidade. Depressão, uso de drogas, morador de rua. É ex-presidiário e aidético. A justiça lhe fez assim. Ele é um produto da nossa justiça. Carrega um saco plástico com roupas sujas e objetos catados na rua. Vez por outra o mesmo aparece na casa de sua mãe mas retorna para o infinito sem a ajuda e a proteção de ninguém. Ele continua desprezado pela sociedade do seu tempo como os leprosos do tempo de Jesus.
Este fato está divulgado na internet e deve ser amplamente apresentado para que a sociedade como um todo perceba que de um lado é necessário que as punições para o crime sejam devidamente aplicadas dentro da lei, mas, por outro lado, sejam também corrigidos os inúmeros e graves erros que o estado brasileiro, com a justiça brasileira estão cometendo contra os pobres e jovens do nosso país não prisões que são masmorras e campos de concentração onde todos os tipos de atrocidade são cometidos entre pessoas detidas mas também por agentes do estado.
A sociedade precisa perceber que há uma propaganda enganosa assimilada por muitas pessoas que é imaginar que quanto mais prisão menos violência. A sociedade, de forma ingênua e ignorante se sente segura quando acontecem prisões.
A realidade é esta: quanto mais se prende mais a violência tem aumentado no país. A prisão ao contrário do que se pensa, ela deforma a pessoa e a torna muito mais preparada para o crime e para a violência. Quanto mais prisões mais insegurança nós teremos, até porque não existe nenhuma segurança nas prisões.  Quando existe uma rebelião, como todos sabem, a destruição da unidade é imensa. As construções mesmo novas são completamente inseguras. A construtora desviou os recursos e não executou o que estava no projeto e tudo fica como está. Na Paraíba, todas as unidades novas dos últimos anos estão dentro deste patrão de insegurança. Mesmo assim, a sociedade continua com a ilusão de que está tudo bem.
Ou o estado brasileiro cria uma política para o sistema penitenciário ou a realidade será esta por muitos anos.
pebosco@yahoo.com.br

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

NATAL

Dom Canísio Klaus

Bispo de Santa Cruz do Sul - RS

“Natal se aproxima, é tempo de amor; renasce a esperança de um mundo melhor”!
O verso acima faz parte de uma canção muito cantada pelas comunidades cristãs no tempo do Advento. Nos recorda que o tempo do Natal é tempo de amor. Tempo onde contemplamos o amor da Santíssima Trindade – o Pai, o Filho e o Espírito Santo – se abrindo para o amor humano.
Sem abandonar o seio da Santíssima Trindade, o Filho de Deus assume a natureza humana na pessoa de Jesus de Nazaré, para nos provar o grande amor que Deus tem para com a humanidade. A partir daí foi fácil para São João escrever às comunidades cristãs da Ásia Menor, que “quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor” (1Jo 4,8). E a prova está em que “não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou, e nos enviou o seu Filho como vítima expiatória por nossos pecados” (1Jo 4,10).
A centralidade da festa  do Natal é o encontro da divindade  com a humanidade. O Deus que é Amor vem ao encontro da humanidade, “esvaziando-se a si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens” (Fl 2,7). Por isso só acontece Natal onde a festa  tiver  a presença das manifestações do amor da família de Deus e da família humana. Onde Deus  está ausente, mesmo contando com a presença do Papai Noel, não acontece Natal.
Ao assumir a condição humana no seio de uma família, o próprio Deus escolheu e indicou a família como o melhor espaço para fazer acontecer o Natal. A partir dela formam-se os grupos familiares e as comunidades. Deus quis precisar da boa vontade e do acolhimento  da Família de Nazaré para nascer no meio de nós como o maior presente da humanidade. Por isso, os espaços privilegiados para celebrar o verdadeiro Natal do Senhor, são as famílias, os grupos familiares e as comunidades de fé.
Convido, pois, o povo diocesano que se deixe tocar pela mensagem central do Natal, acolhendo o Deus que vem como menino/criança. Vamos abrir as portas das nossas casas ao Deus que bate e pede licença para entrar, com o desejo de permanecer no meio de nós. Vamos dar asas ao amor, porque “quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele” (1Jo 4,16).
Desejo um feliz e abençoado Natal do Senhor  a todas as pessoas, famílias, grupos, comunidades e paróquias. Que em todos os recantos da Diocese se cante “Noite Feliz” e, unidos aos Anjos, entoemos “Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos homens de boa vontade”.
Feliz Natal!

NATAL


Estamos nas proximidades do Natal mais uma vez. Todos os anos a mesma data se repete na celebração do nascimento do menino Jesus. Desde o seu nascimento até os nossos dias a sua proposta de vida fica como algo ainda a desejar: um mundo segundo o desejo de Deus, conforme encontramos na criação quando Deus viu que tudo era bom.
O que nós celebramos não é aquilo que nós vivemos. Estamos aquém de um mundo segundo o desejo de Deus.
As divisões, as guerras, a violência, a fome, as doenças, o aborto, são realidades que afligem a humanidade em todos os lugares do mundo. Mesmo assim continuamos celebrando o Natal. Não conseguimos alcançar a grandeza do fato e transformá-lo em vida na construção de um mundo novo.
A questão prisional no mundo é símbolo da pratica de muitas injustiças cometidas e símbolo de morte para tantos. Um pernambucano ficou preso injustamente por 19 anos. O fato foi considerado pelo STF como o maior erro judicial da história do Brasil.
No Espirito Santo, homem fica preso por dois anos, vítima de uma série de erros da polícia e da justiça.
 Pedreiro fica preso injustamente por 5 meses após perder os documentos. Preso por engano. Preso por 30 anos nos Estados Unidos acusado injustamente por estupro é libertado. Trabalhador, batedor de Açaí, preso injustamente luta por liberdade.
Estas manchetes e tantas outras são facilmente encontradas e revelam a grave situação de injustiça pela qual passamos. Se 40 por cento da população brasileira detida é provisória, é um grave sinal de injustiça. Temos um país que prende mas é incapaz de administrar depois a situação.
Como entender situações dessa natureza? Pessoas presas injustamente e esquecidas nas prisões. Como podemos celebrar o Natal diante dessas situações? Como nos confraternizar? Como os responsáveis por situações dessa natureza vão à missa e ao culto?
A nossa fé precisa caminhar junto de nossas práticas e da nossa vida. Natal é festa da vida. Não podemos ser a favor de uma cultura de morte, defendê-la e alimentá-la.
Em recente mensagem o papa Francisco falou sobre o Natal com as seguintes palavras:
 “O Natal é “festa de confiança e esperança”, é preciso “reconhecer no rosto de nosso semelhante, sobretudo nos mais fracos e marginalizados, a imagem do filho de Deus feito homem (...)No Natal, Deus se manifesta não como alguém que está no alto e domina o universo, mas se agacha, abaixa até a Terra, humilde e pobre. Para sermos iguais a ele não temos que nos colocar acima dos demais, mas nos agachar, nos colocar a serviço, nos fazermos pequenos com os pequenos e pobres com os pobres”.
De fato, a grande incoerência da vida cristã é esta: que não somos capazes de perceber e reconhecer que no outro, independentemente de sua situação está Jesus, o mesmo que nasceu, o mesmo que morreu, o mesmo que o louvamos em nossos cultos.
É hipocrisia cristã, dizer-se pessoa cristã e se tornar pessoa que defende a destruição do ser humano, se colocando acima dele como diz o papa.
Por último, ainda diz o papa: “É uma coisa feia quando se vê um cristão que não quer se agachar, que não quer servir. Um cristão que se pavoneia é feio. Este não é cristão, é pagão. O cristão serve e se agacha”.
Que este tempo de Natal nos ajude a pensar que o mundo poderá ser melhor se cada pessoa abrir mãos do seu egoísmo e se aproximar da outra pessoa como sua irmã. Natal é isso! Simplesmente Deus quis se aproximar e se fazer um de nós. Basta que compreendamos e realizemos isso para que o nosso Natal seja verdadeiro.
pebosco@yahoo.com.br

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

DIA 10 DE DEZEMBRO

Temos inúmeras datas para serem comemoradas durante os 365 dias do ano. Mais uma que não podemos esquecê-la. Dia 10 de dezembro. Em 1948, depois da Segunda guerra Mundial, a ONU proclamou a Declaração Universal dos Direitos da Pessoa Humana. A data se tornou oficial em 1950. A Declaração Universal com 30 Artigos apresenta e expressa direitos básicos necessários para a vida e a dignidade do ser humano. Para além dos passos dados, temos ainda uma realidade profundamente desafiadora nesse campo a ser enfrentada e modificada na pratica e na consciência das pessoas. Quando se olha para a história do nosso país, por exemplo, se vê a escravidão como algo do passado, como historia do Brasil, como se hoje as condições da pessoa negra fosse totalmente outra. É bom lembrar que a população jovem, negra, está sendo assassinada e detida nas prisões, por ser negra. A luta de Nelson Mandela na África do Sul contra o apartheid é luta para os nossos dias num país que não é europeu, mas resultado da miscigenação de raças: brancos, negros e índios. A discriminação racial é algo muito palpável e está sempre chegando fatos dessa natureza nos tribunais, sem esquecer que a escravidão, sobretudo no Brasil tem varias formas e expressões: o trabalho escravo e a prisão. Quando se pensa os anos da ditadura militar, também se pensa a tortura como algo do passado. Aquele período que se estendeu de 1º de abril de 1964 até 15 de março de 1985. Hoje as Comissões da Memoria e Verdade estão por ai fazendo um levantamento da situação passada, como se ela hoje não mais existisse. No entanto em ambientes onde existem pessoas privadas de liberdade como abrigos, hospitais, casas de acolhida, delegacias e prisões, a tortura faz parte do dia a dia. Tanto física como psicológica e praticada por pessoas com a função de relar pela garantia e integridade física das mesmas. Na Ouvidoria de Policia, nas prisões e no Conselho já se ouviu inúmeros relatos de praticas de tortura contra pessoas que não podem se defender ou reagir. É na verdade, uma pratica criminosa do estado, na ação de seus agentes. Como é do nosso conhecimento, são os grupos vulneráveis que são as maiores vitimas da tortura e do desrespeito aos direitos fundamentais. Entre esses grupos estão as mulheres e as crianças que dentro de casa vivem a experiência da tortura e da discriminação social e familiar. Por causa dessa realidade que pode ser acrescida de tantos outros dados é que o dia 10 de dezembro não pode ser esquecido. Exatamente por isso que o Conselho Estadual de Direitos Humanos da Paraíba apresentou o relatório anual de atividades, mostrando que foram inúmeras as ações, apesar da falta de estrutura do mesmo, foi possível atuar em muitas frentes. O Conselho pautou a violência contra a mulher, segurança pública, moradia, questão indígena, ciganos e comunidade quilombola, transporte público, saúde e as violações de direitos em unidades prisionais, central de policia, internação de adolescentes e comunidades terapêuticas. O Conselho foi criado no estado para esta função, agrando ou não! Não se trata de caça às bruxas, mas de suscitar uma discussão e uma pratica que seja de inclusão social e de respeito aos direitos. Se o outro está sendo respeitado em determinada situação eu também serei se um dia também eu estiver naquela situação. A máxima de Jesus é: “Faça ao outro o que gostaria que também fizessem a você”. Assim os agradecimentos aos que fazem parte do nosso Conselho pelo empenho dispensado neste ano de 2013 sem esquecer Renato e Valdênia que se encontram ausentes. pebosco@yahoo.com.br

ADVENTO E NATAL

Já antes do Advento o comércio se antecipa e começa a propaganda em torno do Natal. Além do nascimento de Jesus e da Pascoa, nada se sabe de sua vida e, o que se sabe tem uma dimensão negativa em vista do consumo. Tudo circula em torno do comercio por causa do faturamento financeiro. Nenhum outro tempo é tão explorado como o tempo de final de ano. Para nós cristãos católicos, o ano litúrgico termina com a festa de Cristo Rei e, no domingo seguinte, inicia-se a primeira semana do advento, aquele tempo especial de preparação e de alegre expectativa para o Natal. A cor litúrgica é roxa, mas não tem o mesmo significado do tempo da quaresma que é muito penitencial. No advento se misturam elementos de penitência, mas em vista da alegre expectativa. No Ano A, já no primeiro Domingo, o apostolo Paulo na carta aos Romanos já apresenta esse tempo como algo que acontece em cada manha que nós acordamos, em vista da proximidade da salvação. Rom. 13. Uma grande riqueza aparece nas leituras bíblicas desse tempo, riqueza que não podemos perder de vista. O profeta Isaias, João Batista e Maria, são figuras que enchem o nosso coração de alegria, esperança e fé. Elementos que nos impulsionam para caminharmos sempre mais. Devemos procurar aproveitar cada momento desse tempo (o tempo é sempre único) para a nossa contemplação, mesmo sendo um tempo de muitas atividades, vale a pena nos depararmos com o presépio que relembra o maior acontecimento da Historia da humanidade. Na verdade o mundo está dividido em dois tempos: antes e depois de Cristo e, essa mudança, para nos cristãos é celebrada exatamente nesse momento cuja preparação nós iniciamos agora. Devemos ter o cuidado suficiente com a tentação do comercio para não comprarmos coisas que não precisamos e que não condizem com o tempo celebrado. No Natal celebramos e nos encontramos com o nosso Deus que se entrega completamente se dispondo a fazer-se um de nós com todas as semelhanças menos na condição de pecado. Aquele que nos criou à sua Imagem e Semelhança quis por um imenso amor fazer a nossa experiência através do Verbo que se faz carne. Jamais compreenderemos esse grande mistério: Maria também não o compreendeu, mas o aceitou. Assim também nós não temos noção do presente que a humanidade recebeu de Deus e que nós continuamos permanentemente sendo presentados em nossos dias. Portanto, a forma mais importante de viver esse mistério é que cada pessoa, se coloque diante dele, com a consciência de que somos tão importantes que Deus fez tudo isso por nós. Enquanto para muitas pessoas Deus não existe e se existe, Dele não se tem noticia, para nós Deus é tão presente e tão concreto que podemos tê-lo através do seu Filho até o fim dos tempos. Mateus 28,20. Assim, cada pessoa, na intimidade do seu coração e participando de sua comunidade, faça a sua preparação para o Natal do Senhor. Não deixe para amanha. Quando assim procedemos já descartamos o momento presente que não é apenas tempo, mas a nossa vida que passa. Quem puder não deixe de fazer ao menos uma manha ou uma tarde de reflexão por semana. Assim você poderá com mais tranquilidade vivenciar e saborear esse tempo de expectativa que Maria viveu antes do nascimento do nosso Salvador. pebosco@yahoo.com.br

NO SERTAO DA PARAIBA

Sertão do estado, cidade de Patos. Prisões de funcionários do sistema penitenciário. Nesta semana, uma rebelião. Aprendi e sei que é verdade. Presos só fazem rebelião quando a situação está para além de suportável. Uma tentativa de fuga acontece às escondidas e às vezes já acertada com algum funcionário ou segurança externa, mas a rebelião é um expor-se totalmente, portanto, significa arriscar a própria vida. A pessoa presa sabe que está cometendo uma falta grave, se arriscando e vai sofrer as consequências da rebelião. Por isso elas não são frequentes e normalmente são provocadas por algumas situações tipo um tratamento desumano coletivo que deixa a cadeia toda atingida e insatisfeita, exemplo: uma comida estragada; familiares humilhados na entrada da prisão; ausência do banho de sol; falta da assistência jurídica; violência física. Essas causas entre outras são geradoras de rebeliões. Como a estrutura de nossas prisões não oferecem nenhuma segurança há sempre a destruição do patrimônio. A estrutura física das prisões precisaria ser mais segura, mas isso só no projeto de construção. As construtoras desviam os recursos e fazem e fazem os piores serviços. Para não ir longe, o presidio regional de Guarabira fez uma construção no ano passado que pelas informações da direção custaram 300 mil reais e ficou pior do que a estrutura velha em termos de segurança, um VENGONHA para o gestor da pasta da Administração Penitenciaria. Falta total de gestão, inadmissível. Em Patos, na rebelião, pelas noticias um preso de Guarabira foi assassinado. Em recente conversa com um juiz da VEP, se falava exatamente dessa mentalidade distorcida das transferências nem sempre necessárias. Muitas vezes o juiz lá na sua comarca com uma cadeia pequena prefere não ficar com presos e transfere para os presídios grandes que já não suportam mais a quantidade de presos. O mesmo acontece com os diretores que em nome da falsa segurança vão jogando os problemas para terceiros. O que estaria fazendo um preso de Guarabira em Patos? Seria para ressocializar? Ou um castiga a mais? Sim, um castiga a mais para ele e para a família que não pode fazer as visitas. Nesse jogo a estrutura prisional é tão descumpridora de seus deveres ou tão criminosa quanto aqueles com quem ela lida. Existe uma preocupação no judiciário no sentido de que esse tipo de transferência sem fundados motivos sejam evitadas. Na capital do estado, a situação da mulher presa é preocupante. Em recente visita a uma maternidade, foi encontrada uma mulher que teve o filho e foi encontrada naquele mesmo dia algemada na cama pelo pé. Outra que foi ter a criança e ate mesmo na UTI estava algemada. A informação foi confirmada pela medica plantonista. Não sei se isso é uma meta da ressocialização em nosso estado. Uma mulher cirurgiada, com agentes de segurança ao seu lado fazendo a escolta ainda precisaria estar algema? Que zelo é esse? Não reclamem se reclamo, pois a SEAP está nos dando motivos de sobra para reclamar quando nos poderia dar motivos para elogiar na adoção de medidas humanizadas e humanizadoras. Questão penitenciaria não é só questão de recursos financeiros, mas de tratamento respeitoso e humano. Sabemos é verdade que existem agentes muito bons e com essa preocupação, mas que são ate perseguidos pelo bom comportamento quando deveriam ser elogiados e promovidos pelo bom serviço prestado. Na verdade a critica tem somente a finalidade de evitar o que nunca deveria acontecer: sofrimentos e mortes. Afinal, a prisão é a escravidão dos tempos modernos. Os negros de ontem são os mesmos de hoje. pebosco@yahoo.com.br

EU QUERO JUSTIÇA

Diante dos inúmeros casos de violência se tem escutado um grito: QUERO JUSTIÇA!! A justiça tem a sua estrutura muito complexa e podemos dizer feita de compartimentos: ela é federal, eleitoral, trabalhista, criminal, estadual, etc. O acesso à mesma não é tão difícil, mas o seu funcionamento tem um ritmo que a torna inviável para cumprir a sua missão. Existem muitas situações nas quais a pessoa morre e não tem o seu pedido atendido pela justiça. Ouvi de um magistrado que a estrutura do judiciário está totalmente defasada diante das exigências e do ritmo da sociedade. Quando o evangelho foi escrito, o próprio Jesus já recomendava que talvez fosse melhor fazer as pazes com o inimigo enquanto caminham para o tribunal. Chegando lá o juiz te entrega ao carcereiro e de lá não sairás enquanto não pagares o último centavo. Mateus 5, 20ss. Estas palavras parece terem sido ditas para os nossos dias. De fato ter esperança na justiça, de modo geral, salvas possíveis particularidades é algo muito difícil. Existem muitas experiências negativas e decepcionantes. Essa é a realidade geral, por exemplo, em nossas prisões. Uma pessoa fica dois anos presa para depois se ter uma posição sobre a sua inocência ou não. Em nosso estado um pernambucano ficou preso e esquecido; cumpriu 18 anos de prisão sem ter direito a nenhum beneficio, isto é, ficou o tempo integral em regime fechado. Em Roma a famosa estatua símbolo da justiça com os olhos vendados tem o sentido de dizer que a justiça não deve ver para fazer acepção de pessoas, mas lamentavelmente, na sociedade como um todo, existem as regalias para os que têm dinheiro, nome e posição social ao contrario dos pobres que são condenados por serem suspeitos. Por mais que se diga que não temos racismo no Brasil, em nosso estado, os negros são os que são assassinados em sua maioria. Mas voltando ao grito que se tem escutado, a pessoa só se interessa pela justiça quando ela sofre na pele a dor da perda de pessoas queridas. O mesmo também acontece com as prisões. Quando tenho alguém da família é que vou sentir o peso da prisão em minha vida. Quero justiça, tem o sentido do castigo e de punição em nossa sociedade. Quem está pedindo justiça recebe o quê da mesma? Nada! Realmente o estado não oferece nenhum apoio às vitimas da violência. Os serviços de assistência social dificilmente chegam para serem presença. Os vizinhos e familiares chegam apenas no momento e depois desaparecem após o velório e o sepultamento, ficando assim a família em total abandono. Na realidade, a família da vitima e do agressor ficam inimigas, num grande sofrimento e a justiça como está hoje, apenas pune que agride e nada mais acontece. Tudo, portanto, fica em torno da punição e do castigo por parte do estado, sem o acompanhamento dos serviços relacionados com a justiça. É por isso que hoje se tem colocado em pauta e em pratica uma justiça que procura restaurar as relações entre vitimas e agressores, pois sem isso, o circulo de violência permanece cada vez mais presente nas relações sociais. Não basta dizer eu não tenho raiva, eu perdoei. As exigências evangélicas dessa relação passam pela iniciativa de ir ao encontro ao encontro, para que a outra pessoa tenha a certeza de que o circulo da vingança e da violência foi quebrado. De fato, a reconciliação é mais importante do que o culto. Como dizia Santo Agostinho: “quem vive bem reza bem; quem reza bem vive bem”. Só vive bem e reza bem quem tem uma vida reconciliada com Deus e com o seu próximo. pebosco@yahoo.com.br

Resoscializar o Quê?

No Brasil as Secretarias de Estado que cuidam da questão prisional passaram a se chamar de Administração Penitenciaria. É que cuidavam também de outros serviços como cidadania e justiça. Praticamente todas elas estão falando em ressocialização e até denominaram um setor, com algumas pessoas para que cuidassem do referido serviço. É visível e notório, mas também lamentável que essas iniciativas tenham um cunho meramente politico e de marketing, pois os dados mais elementares indicam que o sistema como tal não consegue trazer mudanças na vida da pessoa presa. Alias as mudanças existem, mas são as piores possíveis. A pessoa que passa pela prisão carrega para resto da vida uma experiência de morte com sequelas jamais sanadas pelo grau de desumanidade presente nas prisões. Prender já é uma violência sem contar com a violência interna (entre presos) e a violência institucional (por parte do estado). Fora do ambiente prisional humano, qualquer outro animal tem mais dignidade e direitos sem os deveres que são inerentes só ao ser humano. No sistema prisional o estado massacra a todos. Nele, os funcionários também são vitimas em uma estrutura que só serve para alimentar a violência e a corrupção, mas são vitimas maiores: alguns dentre eles não estão ali para ajudar a pessoa presa a sair do mundo do crime, mas a trata-la com crueldade e desumanidade, pois o estado brasileiro ate hoje não decidiu para que quer os seus agentes. Se de um lado fala em ressocializar que é uma grande mentira, de outro lado todos os agentes então em função da chamada segurança que é outra grande mentira. As direções sabem que não há nenhuma segurança nessas unidades prisionais. Na verdade a comunidade carcerária não quer fugir. Alias, quer, mas prefere não sair. Então o que existe de fato são algumas ações nas secretarias ainda muito tímidas que atingem o mínimo das pessoas detidas e isso é divulgado. Exemplo: são 300 pessoas detidas, 30 estão na escola de forma muito precária. Se não tem espaço para abrigar é claro que não tem espaço para estudar. Não posso educar e transformar ou ajudar numa mudança de comportamentos se não existe nenhum recurso financeiro. Explicando melhor. Não há repasse de remédio para as unidades prisionais (é o mínimo possível); a constatação é do Doutor Carlos Neves, juiz da VEP de João Pessoa, que tem visitado as prisões no estado todo; não se faz nenhum serviço de manutenção, nem de uma lâmpada em uma cela; até colchão alguns diretores permitem que a família leve; também material de higiene pessoal e de limpeza, roupa, etc. Na realidade, existe uma despesa exorbitante com o sistema prisional e mesmo assim a família, além do sofrimento que passa ainda precisa ajudar na manutenção do sistema que lhe oprime. Outra grave situação do sistema é a situação do judiciário. Qual é a situação? A falta de estrutura que impede o funcionamento do mesmo; a falta de pessoal e o acumulo de processos; a mentalidade de determinados juízes que acham que apenas prender é a solução. A pessoa presa é vitima de uma grande injustiça. Ela fica por mais de um ano sem que o judiciário defina a sua situação. É por isso também que as unidades estão superlotadas. Não se consegue perceber que quanto mais se prende mais se fortalece uma grave situação social. O judiciário tem alimentado toda essa situação e não tem feito como deveria a sua parte, por razoes já alegadas. Além do mais, cada vez mais cresce a criminalidade com a punição dos mais fracos que são mantidos presos apenas como suspeitos e, em muitos casos, as provas foram forjadas nas delegacias sem que a pessoa tivesse o direito de se defender. Por onde andam as penas alternativas e as alternativas penais? O judiciário brasileiro ao que nos parece precisa repensar as formas de punir. pebosco@yahoo.com.br

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Vida

LEONARDO BOFF - A transfiguração na morte O dia dos mortos, dois de novembro, é sempre ocasião para pensarmos na morte. Trata-se de um tema existencial. Não se pode falar da morte de uma maneira exterior a nós mesmos, porque todos nós somos acompanhados por esta realidade que, segundo Freud, é a mais difícil de ser digerida pelo aparelho psíquico humano. Especialmente nossa cultura procura afastá-la, o mais possível, do horizonte pois ela nega todo seu projeto assentado sobre a vida material e seu desfrute etsi mors non daretur, como se ela não existisse. No entando, o sentido que damos à morte é o sentido que nós damos à vida. Se decidimos que a vida se resume entre o nascimento e a morte e esta detém a última palavra, então a morte ganha um sentido, diria, trágico, porque com ela tudo termina no pó cósmico. Mas se interpretarmos a morte como uma invenção da vida, como parte da vida, então não a morte mas a vida constitui a grande interrogação. Em termos evolutivos, sabemos que, atingido certo grau elevado de complexidade, ela irrompe como um imperativo cósmico, no dizer do prêmio Nobel de biologia Christian de Duve que escreveu uma das mais brilhantes biografias da vida sob o título Poeira Vital (1984). Mas ele mesmo assevera: podemos descrever as condições de seu surgimento, mas não podemos definir o que ela seja. Na minha percepção, a vida não é nem temporal, nem material, nem espiritual. A vida é simplesmente eterna. Ela se aninha em nós e, passado certo lapso temporal, ela segue seu curso pela eternidade afora. Nós não acabamos na morte. Transformamo-nos pela morte, pois ela representa a porta de ingresso ao mundo que não conhece a morte, onde não há o tempo mas só a eternidade. Consintam-me testemunhar duas experiências pessoais de morte, bem diversas da visão dramática que a nossa cultura nos legou. Venho da cultura espiritual franciscana. Nos meus quase 30 anos de frade, pude vivenciar a morte como São Francisco a vivenciou. A primeira experiência era aquela que, como frades, fazíamos toda sexta feira, às 19:30 da noite: “o exercício da boa morte”. Deitava-se na cama com hábito e tudo. Cada um se colocava diante de Deus e fazia um balanço de toda a sua vida, regredindo até onde a memória pudsse alcançar. Colocávamos tudo, à luz de Deus e aí, tranqüilamente, refletíamos sobre o porquê da vida e o porquê dos zigue-sagues deste mundo. No final, alguém recitava em voz alta no corredor o famoso salmo 50 do Miserere no qual o rei Davi suplicava o perdão a Deus de seus pecados. E também se proclamavam as consoladoras palavras da epístola de São João:“Se o teu coração te acusa, saiba que Deus é maior do que o teu coração”. Éramos, assim, educados para uma entrega total, um encontro face a face com a morte diante de Deus. Era um entregar-se confiante, como quem se sabe na palma da mão de Deus. Depois, íamos alegremente para a recreação, tomar algum refresco, jogar xadres ou simplesmente conversar. Esse exercício tinha como efeito um sentimento de grande libertação. A morte era vista como a irmã que nos abria a porta para a Casa do Pai. A outra experiência diz respeito ao dia da morte e do sepultamento de algum confrade. Quando morria alguém, fazia-se festa no convento, com recreação à noite com comes e bebes. O mesmo ocorria depois de seu sepultamento. Todos se reuniam e celebravam a passagem, a páscoa e o natal, o vere dies natalis (o verdadeiro dia do nascimento) do falecido. Pensava-se: ele na vida foi, aos poucos, nascendo e nascendo até acabar de nascer em Deus. Por isso havia festa no céu e na terra. Esse rito é sagrado e celebrado em todos os conventos franciscanos. O frade que deixou esse mundo, entrava na comunhão dos santos, está vivo, não é um ausente, apenas um invisível. Há celebração mais digna da morte do que esta inventada por São Francisco de Assis que chamava a todos os seres de irmãos e irmãs e também a morte de irmã? A percepção da morte é outra. As pessoas são induzidas a conviver com a morte, não como uma bruxa que vem e arrebata a vida, mas como a irmã que vem abrir a porta para um nível mais alto de vida em Deus. Cada cultura tem a sua interpretação da morte. Estive há tempos entre os Mapuches, no sul da Patagônia argentina, falando com os lomkos, os sábios da tribo. Eles têm bem outra compreensão da morte. A morte significa passar para o outro lado, para o lado onde estão os anciãos. Não é abandonar a vida, é deixar seu lado visível para entrar no lado invisível e conviver com os anciãos. De lá acompanham as famílias, os entes queridos e outros próximos, iluminando-os. A morte não tem nenhuma dramaticidade. Ela pertence à vida, é o seu outro lado. Poderíamos passar por várias outras culturas para conhecer-lhes o sentido da vida e da morte. Mas fiquemos no nosso tempo moderno. Há um filósofo que trabalhou positivamente o tema da morte: Martin Heidegger. Em sua analítica existencial afirma que a condição humana, em grau zero, é a de que somos um ser no mundo, este não como lugar geográfico, mas como o conjunto das relações que nos permitem produzir e reproduzir a vida. A condition humaine é estar no mundo com os outros, cheios de cuidados e abertos para a morte. A morte é vista não como uma tragédia e sim como a derradeira expressão da liberdade humana, enquanto o último ato de entrega. Essa entrega sem resto abre a possibilidade para um mergulho total na realidade e no Ser. É uma espécie de volta ao seio de onde viemos como entes mas que buscam o Ser. E finalmente, ao morrer, somos acolhidos pelo Ser. E aí já não falamos porque não precisamos mais de palavras. É o puro viver pela alegria de viver e de ser no Ser. Para o homem religioso, este Ser não é outro senão o Supremo Ser, o Deus vivo que nós dá a plenitude da vida. Leonardo Boff escreveu Vida para além da morte, Vozes 2012. Postado por BLOG DE UM SEM-MÍDIA às 00:59 Marcadores: Boff

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

CATEQUESE



Como ler a Bíblia na Catequese

1- Introdução
A Bíblia retrata o itinerário da fé de um povo, por isso, é nela que buscamos luz e inspiração para todo o processo da evangelização e da catequese, sobretudo quando se trata dos adultos. Mas para trabalhar de forma adequada, faz-se necessária uma sólida formação bíblica tanto do/as catequistas e outras lideranças de base, quanto dos seus formadores. Isto supõe que se conheça e leve à prática, na formação e na catequese, os avanços no campo da hermenêutica bíblica (métodos de abordagens e de interpretações já assumidos e recomendados pelo Magistério).
A Palavra de Deus, tal como encontramos na Bíblia é o coração da Catequese. A catequese nasce da Palavra de Deus nas Sagradas Escrituras. Na Igreja a partir do Vaticano II a Bíblia recuperou o lugar que nunca devia ter perdido.
A fonte na qual a catequese busca a sua mensagem é a Palavra de Deus. A catequese há de haurir sempre o seu conteúdo na fonte viva da Palavra de Deus, transmitida na Tradição e na Escritura (CT 27). A Bíblia ocupa lugar especial: nela, a Igreja reconhece o testemunho autêntico da Revelação divina. É o livro de catequese por excelência; os textos catequéticos lhe servem de complementação” (TM, 24). O Documento de Catequese Renovada recorda que os manuais de catequética não devem substituir a leitura da Bíblia, o livro da catequese por excelência da catequese, mas orientar para ela (CR nº 154; DNC nº 104).

2- Dificuldades mais frequentes dos catequistas em relação à Bíblia
O catequista como o fiel ouvinte da Palavra é considerado o ministro da Palavra. Aquele que tem a missão de fazer ressoar a Palavra de Deus em todo lugar. É aquele e aquela que acompanha, que introduz os catequizandos na escuta da Palavra. Neste caminhar o catequista encontram-se algumas dificuldades como:
· Falta de preparação
o É muito comum entre os catequistas a falta de preparação, experiência e conhecimento das Escrituras. Ele não é um exegeta, um especialista nas ciências Bíblicas. Porém sabe que deve ser um bom leitor e conhecedor das escrituras e procura ser um excelente comunicador da fé. A Bíblia deve ser para o catequista algo como sua casa, sua família. Porém, como fazer para que o catequista cresça na familiaridade com a Bíblia? Como capacitá-los?
· Linguagem distinta
o Como ouvinte e servidor da palavra, o catequista deve perceber o mistério de Deus revelado na história humana e transmití-la numa linguagem que fale ao coração humano. Levar os catequizandos a descobrir a proposta da mensagem que a palavra traz para cada um. Percebe-se um distanciamento entre o modo de falar da Bíblia e a maneira como o catequista transmite aos seus catequizandos. O que fazer para entender a linguagem da Bíblia?
· Formas de pensar diferentes
o A maneira de pensar dos catequistas, homens e mulheres de hoje é muito distinta da forma do pensar que encontramos na Bíblia. Há muitas palavras, símbolos na Bíblia que correspondem a seu tempo, aos povos e culturas da época em que surgiu tal livro e que na maioria das vezes não traz nenhuma mensagem a cultura e a realidade do povo nos seus diversos lugares. Como entender a maneira de pensar que está por traz de um texto?

· Ambientes diversos
o Percebe-se uma grande dificuldade em descobrir o ambiente em que nasceu o texto. O povo da Bíblia era um povo profundamente religioso, de tal forma que não podia entender nada sem fazer a relação com Deus. O sagrado estava presente em todas as manifestações de sua vida. Sempre estava em relação com o divino, o ambiente campesino ou pastoril. A presença do divino estava em toda parte (Sl 139). Porém hoje os ambientes onde se escuta e transmite a Palavra é muito distinto do ambiente de onde originou tal texto. O que fazer para aproximar o ambiente da Bíblia com o ambiente de hoje? O desafio do catequista e da comunidade catequizadora é o de buscar a atualização e a formação.
· Outras dificuldades
o Leitura utilitarista. A leitura ao pé da letra (fundamentalista). Muitas vezes acham que a Bíblia é um livro muito difícil de entender e recorrem somente àqueles textos consideram de maior facilidade. Há um grande crescimento da leitura liberalista da Bíblia. Como motivar os catequistas para a leitura adequada da Bíblia?

3- CRITÉRIOS PARA A LEITURA DA BÍBLIA NA CATEQUESE

v Crer que Bíblia é a Palavra de Deus e Palavra da vida
· Esta fé é o ponto de partida para a leitura fiel da Bíblia
· É a porta de entrada que faz compreender que a Bíblia é Palavra de Deus, é inspiração de Deus, “ Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para instruir, para refutar, para corrigir, para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, qualificado para toda boa obra (2 Tm 3, 16-17).
· A Bíblia é a Palavra de Deus: Por ser Palavra de Deus ela tem autoridade sobre os leitores e ouvintes dela mesma; é regra da nossa fé unida a Tradição; está na raiz da vida da Igreja que nasce e alimenta –se nela; tem uma força especial para realizar o que transmite; comunica o Espírito Santo a quem lê com fé; está na comunidade para que os pastores (Magistério) vivam segundo a palavra. Como recomenda Tiago “ Tornai-vos praticantes da Palavra e não simples ouvintes, enganando-vos a vós mesmos (Tg 1, 22).
v É Palavra de Deus em linguagem humana
· O Concilio Vaticano II nos recorda que nas Sagradas Escrituras Deus falou de modo humano, através de homens e mulheres. Porque é a única linguagem que os homens e mulheres podem entender. Uma linguagem com todas as possibilidades e limitações. Como afirma a Dei Verbum, “A Bíblia é Palavra de Deus em linguagem humana, pois Deus se revelou bem por dentro de nossas lutas e sofrimentos, alegrias e conquistas, virtudes e pecado (cf DV 2)”.
· Desde o momento da Criação e Encarnação Deus se fez um como nós para falar em linguagem humana. Para entender a linguagem das Escrituras faz-se necessário entender a linguagem humana: o modo de falar, os costumes, a cultura, ritos...
v Deus se revela na Palavra e na Escritura
· Antes de ser um conjunto de verdades (dogma de fé) a Sagrada Escritura é a manifestação plena da vida, da graça, do amor e da misericórdia de Deus para com seus filhos e filhas.
· Na Bíblia encontramos a presença amorosa de Deus, que experimentamos com força libertadora na história da humanidade.
· Sua manifestação se faz a partir de um processo gradativo, tanto no Primeiro como no Segundo Testamento.
v Jesus é a chave para compreender a Escritura
· Jesus é a promessa, cumprimento e plenitude da revelação. Todos os livros das Escrituras nos falam de Jesus Cristo como o centro da promessa anunciada. A comunidade joanina faz esta referencia quando diz: “ Vós perscrutais as Escrituras porque julgais ter nela a vida eterna; ora, são elas que dão testemunho de mim (Jo 5, 39)”.
· Os cristãos buscam na Bíblia conhecer e seguir uma pessoa chamada de Jesus de Nazaré, o Cristo da nossa fé. O homem nascido de uma mulher (Gl 4, 4-5).
· Em diversas passagens das Escrituras encontramos a referência de Jesus como o cumprimento da profecia revelada. Isso significa que Jesus é a chave para entender as Sagradas Escrituras. São Jerônimo afirma isto ao dizer que: Ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo.
v Ter a Bíblia como livro da Comunidade-Igreja
· Este critério da Igreja-Comunidade tem muito valor. A Bíblia é um livro comunitário. Nasce na comunidade e está dirigido a uma comunidade. O leitor pode até fazer a leitura pessoal, mas o faz como parte integrante de uma comunidade de fé.
· A tarefa de interpretar a Sagrada Escritura é uma tarefa comunitária e nunca individual. Isto é, o leitor está diante de um texto com uma tarefa comunitária.
· A Palavra da Bíblia há de ser bem proclamada, lida, celebrada e vivida sempre na comunidade de fé cristã.
v Ler a Bíblia aplicando os critérios da fé da Igreja
· É muito importante reconhecer que os textos e livros da Escritura não são umas séries de pedaços fragmentados, mas sim, um conjunto harmonioso que tem uma unidade literária. Por isso, se entende melhor a Bíblia quando colocamos cada livro, cada capítulo, cada texto e cada versículo dentro do seu conjunto, onde cada detalhe se explica com o todo.
· Outro critério valioso é levar em conta a Tradição viva da Igreja, ante, durante e depois da escrita. A Escritura é resultado de muitas experiências humanas e de muitas gerações que ao longo do processo foram narrando oralmente, aos poucos colocando por escrito, interpretando, transmitindo e atualizando em cada época.
· A leitura da Bíblia deverá ser feita sempre dentro do conjunto e integridade da fé professada, para tornarmos mais seguras na fé.

v Ler a Bíblia com os olhos da Realidade do povo
· Primeiro, por os olhos na realidade do povo em que o texto foi escrito: Israel com seus costumes, crenças, organizações, problemas, experiências... Isto ajudará o leitor a entender porque de tal escrito diz tal coisa e desta maneira.
· Segundo, com os olhos na realidade do povo que lê a Bíblia, pois sua situação é muita parecida com a do povo da Bíblia. Deus segue chamando e esperando, acompanhado e convocando o povo e hoje, os homens e mulheres para encontrar-se com Ele e dar sentido a vida. O Deus da Bíblia e do povo da Bíblia se parecem muito com o Deus de hoje e o povo de hoje.

v Ler a Bíblia em ambiente de oração
· Se a Bíblia deve ser lida com a fé da Igreja, uma das experiências mais harmoniosa é sem dúvida, a oração pessoal, comunitária e litúrgica. Isto quer dizer que, ao ler a Escritura toda nossa vida está envolvida na vida de Deus. Sua Palavra se encontra com nossa palavra para entrar em diálogo. Sua verdade entra em choque com nossas inverdades. Sua misericórdia com nossa dureza de coração. Um método que deu certo e está se espalhando é o Método da leitura Orante da Bíblia.
· Assim a Sagrada Escritura é como um espelho donde reflete nossa relação e fidelidade a Deus, a nós, ao mundo e a nossa história. Uma boa leitura das Escrituras que começa e termina em oração é a forma mais segura de avançar no caminho da conversão.
v Toda leitura e Interpretação das Escrituras devem ser em função da catequese e da Evangelização.
· Encontrar-se com a Palavra Bíblica é converter-se em testemunho que anuncia com a vida a Boa Notícia de Deus. O corpo leitor no contato com o corpo texto torna-se um corpo que evangeliza e se deixa evangelizar. A ação de Deus na vida pessoal se prolonga como ação Deus na vida da comunidade.
· O encontro não pode ser de outro modo. Pois como a mulher samaritana (Jo 4), Zaquel (Lc 19, 1-11) e tantos outros exemplos que o encontro com a Palavra se transforma em ação.

4- Presença da catequese na Escritura e da Escritura na catequese
Afirmar que a Bíblia é fonte por excelência da catequese é reconhecer esta palavra escrita, como Palavra de Deus e da Vida. No princípio diz a Bíblia, que Deus com sua palavra criadora modelou e organizou todas as coisas em seu devido lugar (Gn 1, 1-2).
A Escritura é fonte e princípio da revelação de Deus. A catequese tem a missão de fazer ressoar na vida dos catequizandos a Palavra revelada.
A Escritura, Palavra de Deus e palavra humana, são consideradas, como um manual de catequese uma vez que a catequese foi dando forma a Tradição escrita. Sabe-se, pela Tradição, que a Palavra de Deus (Tradição oral e escrita) é o ponto central da vida da comunidade que, no exílio e, sobretudo, após o exílio, passa a ser lida, relida e atualizada em vista da organização do povo, em resposta ao Deus da Aliança.
O processo de transmissão consistia num núcleo fundamental para a exegese hebraica. Esta Tradição oral, ensinamento foi sendo transmitida de geração em geração. Este processo podemos chamar de catequese. Para a Igreja a Escritura junto com a Tradição viva é norma suprema da fé, fonte principal e anúncio de vida.
Qual a relação entre Bíblia e Catequese.
1- Origem comum: Nasceram juntas. Hoje podemos dizer que a Bíblia é fonte da catequese, assim como a catequese, de alguma forma foi também fonte da Bíblia. Antes da Bíblia se tornar escrita, foi anunciada, contada, narrada, uma verdadeira catequese na comunidade de Israel e nas comunidades cristãs. Os sábios e hagiógrafos, movidos pelo Espírito Santo (inspiração) e percebendo as necessidades das comunidades, colocaram por escrito os ensinamentos, o plano de Deus para seu povo. Assim, a Bíblia se torna livro escrito inspirado, tornando a fonte da catequese. Hoje é notável esta presença da bíblia na catequese, assim como, a relação recíproca entre as ambas.
2- Finalidade comum: Tanto a Bíblia como a catequese tem a mesma finalidade. A Bíblia não é um depósito de idéias e nem um livro de doutrinas. É, sobretudo, a manifestação escrita do ato vivo de Deus, que se comunica sem cessar as pessoas. Assim, também a catequese. Antes de ser um conjunto de doutrinas, é a manifestação do amor de Deus sempre presente na vida humana. Transformar, iluminar e comprometer a vida dos que recebem a Palavra é exatamente o que busca tanto a bíblia como a catequese.
3- Mensagem comum: A mensagem da Bíblia é exatamente o mesmo que a catequese. Tanto para uma como a outra os grandes temas que lhes envolvem são:
v O Deus vivo, encarnado na história. Tem uma vida de intimidade chamada comunidade de amor (Trindade);
v A pessoa humana, homem e mulher, com seu mistério, sua vocação e sua missão no mundo e na história;
v O mundo, tarefa da pessoa e espaço de sua convivência e responsabilidade. Lugar do estabelecimento das relações fraternas;
v A história, lugar da intervenção gratuita de Deus e da resposta das pessoas;
v A comunidade (Israel, a Igreja), sacramento vivo de Deus, povo santo, família de Deus, povo da palavra;
v O Reino, presença misteriosa, permanente e transformadora de Deus no mundo, na história e no coração humano;
v O seguimento de Jesus, as bem-aventuranças e os valores centrais do Evangelho;
v O testemunho e compromisso com o serviço dos irmãos;
v O sentido que tem a vida humana;
v A vida da fé, esperança e amor fraterno;
v A necessidade do diálogo com Deus por meio da oração pessoal, comunitária e litúrgica;
4- Pedagogia comum: a pedagogia é a forma como Deus se relaciona se comunica e liberta as pessoas. Para a catequese não há outra pedagogia que a pedagogia de Deus usada por Jesus para revelar-se aos homens e mulheres de ontem e de hoje. A pedagogia de Deus destaca o valor da pessoa humana em primeiro lugar.

5- Como ler as Escrituras na Catequese

Há muitas formas de ler as Sagradas Escrituras na catequese. Porém, Métodos e procedimentos são caminhos através dos quais podemos ler um texto bíblico e não devem ser absolutizados. O Diretório Nacional de Catequese lembra-se de dois objetivos na leitura da função da Bíblia na catequese:
a) Formar comunidade de fé.
b) Alimentar a identidade cristã.
5.1- Critérios metodológicos
O povo ama a Bíblia e gosta de ouvir o que diz a Palavra de Deus na liturgia, em grupos ou na oração pessoal. A Palavra de Deus é exigente, mas traz também estímulo, confiança, alimento para a fé. Ela é fonte de alegria mesmo em momentos difíceis. Os métodos exegéticos possibilitam uma melhor compreensão do texto bíblico. O importante é chegar à meta: ouvir o que Deus quer nos dizer. Ler um texto bíblico é aprofundar o sentido da vida. A própria Bíblia é uma mediação para a sublime revelação divina. Quanto mais experiência de vida e vivência de fé, mais a pessoa penetra a mensagem bíblica. O importante mesmo é o posicionamento do leitor: lemos a Bíblia como a lê a nossa Igreja: na perspectiva doutrinal, moral e evangélico-transformadora... a partir dos desamparados nos quais Deus quer ser servido. A leitura da Bíblia não é mera questão de técnicas: é uma opção de vida, fruto do dom do Espírito (cf 1ª Cor 2, 1-16; Rm 11, 33-36).

5.2- Função do Método
1.    Perceber na comunidade e na sociedade a presença de Deus;
2.    Buscar compreender o Deus revelado na Bíblia como o Deus da Vida;
3.    Interpretar a vida à luz da Bíblia;
4.    Conhecer e viver intensamente o Projeto de Deus.

5.3- O método recorre às ciências para compreender o texto bíblico:
Para procurar responder as questões: Quem escreveu o texto? Para quem? Quando? Onde e Como? Método e os subsídios didáticos a serem utilizados na leitura Bíblica e na Catequese estão a serviço da interação fé e vida: aproximação, assimilação e vivência da Palavra de Deus e dos ensinamentos da Igreja, e a serviço das pessoas para que se encaminhem para a maturidade na fé, sejam ativos na Igreja e evangelizadores eficientes na missão. O uso de um bom método garante a fidelidade ao conteúdo.

· Leitura Orante da Bíblia / Lectio Divina;
· Leitura da Bíblia nas comunidades
· Leitura Libertadora / Popular;
· Leitura Histórico-Crítica
· Leitura dos quatros lados (sociológica)

5.4- Como não ler a Bíblia na Catequese?
§  De forma: Apologética, Utilitarista, Oportunista, Fundamentalista, Intimista, Intelectualista, Desencarnada, Como horóscopo. A Bíblia deve permear a ação catequética evangelizadora no seu todo, mas ainda assim precisa de um trabalho específico.
Dois blocos de indicações:
·         Impulso ao Serviço de Animação Bíblica
·         A Bíblia como alma de toda ação evangelizadora

5.5- Serviço de Animação Bíblica
Ø Conhecer e articular as forças já existentes;
Ø Investir na formação bíblica dos catequistas e de todos os cristãos;
Ø Investir na atualização dos presbíteros;
Ø Dialogar com os movimentos e pastorais;
Ø Difundir e valorizar a prática da leitura orante da Bíblia (Leitura, Meditação, Oração e Contemplação);
Ø Valorizar a tradição da Liturgia das Horas;
Ø Incentivar círculos bíblicos e/ou grupos de reflexão;
Ø Cuidar da composição de cantos;
Ø Vivenciar uma eclesiologia de comunhão e participação...

5.6- Atividades e atitudes que envolvem a educação para a leitura bíblica na catequese
ü Docilidade ao Espírito, unindo leitura e oração, fé e vida;
ü Sintonia com a Igreja;
ü Preparação cuidadosa das homilias;
ü Valorização do texto bíblico na liturgia (leituras do Lecionário);
ü Divulgação de esquema básico de história bíblica (linha do tempo);
ü Respeito à condição sagrada do texto;
ü Parceria com as Igrejas cristãs para o estudo ecumênico da Bíblia;
ü Respeitar a situação dos destinatários: caminhada processual;
ü Criação, na paróquia, de uma biblioteca popular;
ü Revisão dos textos de catequese;
ü Valor da Bíblia por si mesma e não como mero instrumental para...;
ü Valorização da Bíblia como fonte fundamental da evangelização;

A leitura Bíblica deve nos tornar pessoas humanas, fraternas e capazes de construir um mundo melhor. Tornar o leitor capaz de confiar na Palavra como força para transformar vidas, animar esperanças, alimentar a fé e como caminho de realização do Plano de Deus.



Texto organizado por Ir. Maria Aparecida Barboza
Teóloga e doutoranda em Sagradas Escrituras pela PUC-RIO