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sexta-feira, 16 de novembro de 2012

PARTILHA


PASTORAL CARCERARIA.

Apresento aqui uma partilha muito livre e muito espontânea sobre a missão da pastoral carcerária que faz parte de vida de tantas pessoas como também traz revolta e insatisfações a outras que não compreendem e também não querem compreender esse trabalho como missão da igreja.
Quando se fala no trabalho de Pastoral Carcerária, aparecem duas posições, visões ou concepções presentes na sociedade, manifestadas pelas pessoas. A primeira posição é para tentar nos convencer de que as pessoas presas são muito ruins. Até os próprios agentes começam a nos apresentar o que de mal existe na realidade carcerária. Falam de nomes de pessoas presas com a preocupação de dizer que não vale a pena fazer aquele trabalho. As pessoas presas são normalmente apresentadas como bandidas e, por isso, não vale a pena lutar por elas. Conheço pessoas formadoras de opinião que dizem a solução para uma unidade prisional: explodir uma bomba. Nessa compreensão todas as pessoas presas são irrecuperáveis. Portanto, todas iguais. Não se leva em conta a situação de cada pessoa, a proporção dos delitos, grau de periculosidade, as que foram presas porque estavam procurando o que comer etc. Não se tem presente quem está cumprindo a sua pena e quem está na prisão sem condenação e sem culpa alguma ou pequena parcela de culpa.
A outra visão de muitos setores das igrejas é esta: se eles são maus então nós vamos até eles para convencê-los de que se salvem. Que se convertam a Jesus. Converter-se a Jesus significa aderir àquele grupo ou àquela igreja de cunho pentecostal. Na realidade, se trata de adquirir adeptos, fazendo proselitismo.
Nestas duas visões não interessa muito a pessoa presa. Na primeira, há toda uma tentativa de exclui-la, exterminá-la, tirar-lhe a vida, ou no mínimo, causar-lhe muitos sofrimentos. Quanto mais castigada melhor para pagar tudo o que fez. A segunda visão mantem uma relação de interesse próprio. É algo que vem desde os tempos da escravidão onde a religião justificava os sofrimentos em vista da salvação da alma. O corpo para nada serve, portanto, não há problema para o mesmo ser submetido a tratamento desumano. Tudo se fundamentava na mentalidade dualista de desprezo ao corpo.
No trabalho de Pastoral Carcerária católica não se leva em conta a bondade ou a maldade da pessoa presa. Não se trata de condená-la nem salvá-la no sentido proselitista. Estas categorias estão pautadas por critérios de julgamento e de preconceito. Elas alimentam o dualismo e determinam as ações: faço para quem é bom, mas não vou ajudar a quem faz o mal. É bom lembrar o que disse Jesus certa vez: “Só Deus é bom”.
Todo trabalho pastoral leva sempre em conta as pessoas a serem atendidas já que cada pastoral tem os seus destinatários, a sua finalidade. A pastoral da criança não vai atender quem é bom e deixar de prestar o serviço a quem é ruim. Trata-se de salvar vidas.  A pastoral da pessoa idosa não vai perguntar como foi a vida pregressa do idoso para determinar o nível do atendimento. Talvez seja um ex-presidiário, mas não vem mais o caso. É a condição da pessoa idosa e doente que está em jogo. Na pastoral carcerária se trata do mesmo direcionamento. A sua finalidade é atender a pessoa presa naquela circunstancia. Não nos interessa se estamos tratando com pessoas de bem, de bens ou pobres e tendenciosas para a prática do mal.
A Pastoral Carcerária, como qualquer outra pastoral, como também todos os outros organismos da sociedade, não podemos usar os critérios de julgamento, de preconceito, de condenação, de fazer justiça com as próprias mãos ou do olho por olho e dente por dente etc.
Toda sociedade é chamada a se relacionar com a pessoa presa, como alguém que perdeu a liberdade, que deve cumprir a sua pena, mas que deve sempre ser tratada como gente. Perder a liberdade não significa perder a dignidade.
Por causa dos sofrimentos que passam na condição de prisioneiros merecem todos os cuidados e a atenção de nossas igrejas. Seguindo a logica de Jesus Bom Pastor que veio não para os bons, mas para os doentes, assim também a Pastoral Carcerária vem para ir ao encontro dessas pessoas que não deixaram de serem imagem e semelhança de Deus, não deixaram de ser morada de Deus, do Deus que é misericórdia e paciência. Do Deus que espera a volta do pecador. (Lucas 15). Devemos ter a convicção que em cada ser humano, criado e amado por Deus há sempre a possibilidade do ser humano ser restaurado em sua dignidade. Onde a pessoa humana é acolhida, valorizada e tratada como pessoa, na sua dignidade, existe a possiblidade para o seu crescimento, o seu desabrochar.
Não podemos nos esquecer: as pessoas presas são estranhas a nós, mas jovens em sua maioria, que passaram pelas nossas catequeses e quando não, é porque não conseguimos atingi-los em nossa prática pastoral. Na imensa maioria são pessoas que não encontram um mundo como Deus quer para todos. Vivemos o mundo dos privilegiados e o mundo dos despossuídos que se revoltam por não viverem com os mesmos direitos tendo os mesmos deveres. São pessoas de nossas comunidades. Membros das famílias que nos ajudam em nossas pastorais. A responsabilidade de acompanhar a situação prisional não é só da pastoral, mas de toda igreja com suas pastorais e, sobretudo das paroquias. Se no território paroquial existe uma cadeia ou um presidio, a paroquia não pode dizer não tenho nada com isso, mas tem a obrigação evangélica de cuidar e dar assistência àquela situação.
Com a nossa aceitação ou não, o mesmo Jesus que adoramos na eucaristia nós o encontramos ou não nas prisões se vamos ou não visita-lo. Trata-se de uma missão bíblica de toda igreja, como obra de misericórdia e de compromisso.
A pessoa presa precisa sempre gritar para ser ouvida. A igreja a exemplo de Jesus precisa ouvir os gritos que surgem das prisões e escutá-los, atendê-los. Jesus que sai de Jericó, indo para Jerusalém, escuta os gritos do cego de Jericó e manda chama-lo. Todos insistiam para que o cego se calasse, como se faz nas prisões, mas o cego grita mais alto ainda até ter o seu pedido atendido: queria ver. O preso grita porque quer ver, quer conviver com a sociedade, quer ir ao medico, quer um remédio, quer falar com o advogado, o diretor, o dentista, etc. Ninguém vai ao seu encontro. O preso é torturado porque grita em suas necessidades. Deus é sempre aquele que escuta os clamores do seu povo: pobre, órfão. Da viúva, do doente, do encarcerado. Não ouvir é deixar de ouvir o próprio Deus que nos fala em todas estas realidades humanas.

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