18 de março de 2014

NOTA DE ESCLARECIMENTOS SOBRE A PASTORAL CARCERÁRIA NA ARQUIDIOCESE DA PARAÍBA

Comecei os meus contatos com a Pastoral Carcerária de João Pessoa, em 1996, quando Dom Marcelo Pinto Carvalheira assumiu o arcebispado na Arquidiocese da Paraíba. O trabalho de Pastoral Carcerária era conduzido por Solemar, IVitória, Padre Jaime, irmão Guido, Padre Antônio Maria, Padre Vicente Zambello e vários outros leigos e leigas, entreeles a senhora Guiany Campos Coutinho.
A Pastoral Carcerária da Arquidiocese, coordenada por essa equipe, fez um trabalho muito significativo pelo nível de dedicação dispensada ao trabalho e, por isso, o nosso estado foi se destacando no cenário nacional.
Integrando essa equipe, fiquei coordenador arquidiocesano por um período e aprendi muito, com o testemunho dessa equipe abnegada de Joao Pessoa.
Depois dessa experiência fiquei na articulação do estado, seguindo o trabalho do padre Antônio Maria, mas, vale salientar, que a Arquidiocese da Paraíba sempre manteve o seu trabalho com uma boa equipe de coordenação e sempre participou dos encontros estaduais que se sucederam a cada ano em forma de rodizio nas cinco dioceses(Arquidiocese da Paraíba e as Dioceses de Campina Grande, Guarabira, Patos e Cajazeiras), já por 18 anos seguidos. A Arquidiocese da Paraíba sempre levou o maior número de agentes de pastoral para os encontros estaduais.
Atualmente, a Pastoral Carcerária da Arquidiocese da Paraíba tem uma coordenação colegiada, que foi reestrutura no início do mês de junho de 2013 composta pelos seguintes membros: Padre Liginaldo Miguel dos Santos, Solemar Mendes de Sena, Massilon da Silva Ramos, Valéria Maria dos Santos Fragoso e Guiany Campos Coutinho conforme registro em ata já divulgada. Vale salientar que como Solemar Mendes de Sena, a Senhora Guiany Campos Coutinho, já coordenou a Pastoral Carcerária da Arquidiocese da Paraíba por mais de uma vez com o reconhecimento da Arquidiocese inclusive com anotações de seu nome como referência no Anuário Arquidiocesano.
Com a chegada de Dom Aldo, na Arquidiocese da Paraíba, a Pastoral Carcerária foi a primeira a convida-lo para participar de uma reunião que aconteceu no Mosteiro de São Bento para acolher do arcebispo apresentar seu trabalho.
Outro momento marcante em que a Pastoral Carcerária da Paraíba se reuniu com Dom Aldo foi com a presença da presidência do Regional: Dom Antônio Muniz Fernandes e Dom Jaime Vieira Rocha. No término daquela conversa Dom Aldo, que demonstrou-seincomodado durante todo o tempo, disse que Pastoral Carcerária não seria prioridade para a Arquidiocese e que ele não fosse procurado para tratar dessa matéria.
Como a Pastoral Carcerária na Arquidiocese sempre teve uma boa equipe de articulação, o trabalho se manteve sem muitas alterações.
Ao longo desses 18 anos a Pastoral Carcerária conseguiu ser uma referência no que se refere à realidade carcerária uma vez que só ela tem uma presença frequente, semanal, através de suas equipes visitando as unidades prisionais, sendo a presença da Igreja, através de cada membro, cada agente, que cumpre sua missão de batizado. Afinal, é a cada pessoa que Jesus se dirige quando diz “Eu estava preso e vocês foram me visitar”Mt. 25,36
No estado da Paraíba o trabalho da Pastoral Carcerária sempre foi apoiado pelos bispos da Província e eu, pessoalmente, sempre fui apoiado pelos bispos da Diocese de Guarabira, da minha diocese: Dom Marcelo Pinto Carvalheira, Dom Antônio Muniz e DomFrancisco de Assis Dantas de Lucena.
A nossa atuação está articulada com a Coordenação Nacional da Pastoral Carcerária e com a CNBB do Regional Nordeste II, particularmente com Dom Genival Saraiva de França, Bispo de Palmares, Dom Francisco de Assis Dantas de Lucena, Bispo de Guarabira e Dom Jose Luís Ferreira Salles, Bispo de Pesqueira.
À pedido de Dom Francisco de Assis Dantas de Lucena, Bispo de Guarabira, participei de uma reunião da Província da Paraíba, com os bispos do nosso estado. Na ocasião, ao falar sobre a realidade carcerária, pedi que fosse apresentado um bispos referencial paraPastoral Carcerária, mas, momento a minha solicitação não pode ser definidaNeste caso continuei como referência na Província com atribuições de articular, colaborar e gerenciar os conflitos dentro da Pastoral Carcerária e no Sistema Carcerário como um todo.
No mês de janeiro de 2014, a Equipe de Coordenação Colegiada da Pastoral Carcerária na Arquidiocese me pediu para ajudar no processo de discernimento relacionado ao comportamento do agente de pastoral, Massilon da Silva Ramos, também membro da referida equipe. Muitas dificuldades foram apresentadas, inclusive por mim, que havia recebido várias informações, que inviabilizavam a sua continuidade na Pastoral Carcerária. Ele próprio sabe do que a coordenação toda sabe. Com ele se conversou várias vezes e com ele se teve muita paciência e caridade. Por fim, a Equipe de Coordenação Colegiada da Pastoral Carcerária na Arquidiocese o chamou, elencou todas as situações, sugerindo que o mesmo se afastasse enquanto a situação se acalmava. Bom lembrar que em uma Pastoral que se tem dificuldades em ter pessoas disponíveis para colaborar, não é fácil dispensar a colaboração de alguém, a não ser quando a situação extrapola a normalidade.
Quero esclarecer que a decisão foi tomada pela Equipe de Coordenação Colegiada e dessa decisão também participou o padre Liginaldo, indicado pelo senhor arcebispo para colaborar com a Pastoral Carcerária da Arquidiocese. Participei do processo como convidado por ser referência estadual que articula e zela pela missão da Pastoral Carcerária. Assinei como Coordenador Estadual da Pastoral Carcerária, os Ofícios endereçados à Secretaria de Estado de Administração Penitenciária, à Vara de ExecuçãoPenal da Capital e à Coordenação de Pastoral Arquidiocesana comunicando o afastamento do agente de pastoral Massilon da Silva Ramos da Pastoral Carcerária.
Inconformado, o agente afastado procurou o senhor arcebispo para que outras providências fossem tomadas. Ao senhor arcebispo foram apresentadas cartas de boa conduta assinadas por pessoas e entidades desconhecedoras das normas internas da Pastoral Carcerária, para contestar o discernimento e a decisão da Equipe de Coordenação Colegiada. Bom saber que para a Pastoral Carcerária, é preciso o cumprimento de orientações que são sempre relembradas a cada encontro: o perfil do agente de Pastoral Carcerária. Zelar pela a boa conduta, pela boa atuação dos membros da Pastoral Carcerária é zelar pela missão de Jesus Cristo dento dos Cárceres.
Como o arcebispo Dom Aldo de Cillo Pagotto, não mais queria conversa com a Pastoral Carcerária e como um dia se foi orientado por ele, procuramos o Vigário Geral da Arquidiocese da Paraíba, Padre. Virgílio Bezerra de Almeida para tratar do assunto. Participaram da conversa, além de mim, a senhora Guiany Campos Coutinho e o Padre Alexandre Magno que é Articulador Arquidiocesano das Pastorais Sociais. Ao saímos da sala do Vigário Geral, nos aguardava em uma mesa na sala da Cúria, o senhor arcebispo acompanhado do diácono Iran Alves Soares. Sem delongas, o senhor arcebispo foi logo informando que, como afastamos o senhor Massilon da Silva Ramos da Pastoral Carcerária, ele, estava nos afastando. Disse que não queria a nossa interferência na Arquidiocese e que da Pastoral Carcerária cuidava ele.
É verdade que o bispo de cada diocese deve cuidar da vida pastoral. Mas cuidar significa chamar, dialogar, questionar, ouvir, orientar. E não foi essa a atitude do arcebispo da Arquidiocese da Paraíba. Ele não nos ouviu e nem procurou a Equipe de Coordenação Colegiada da Pastoral Carcerária na Arquidiocese para se inteirar sobre o assunto. Naquela ocasião lembrou-nos da conversa que tivera no inicio de seu arcebispado, com os bispos da Presidência do Regional Ne2 e do que tinha nos dito: - Que não queria contato com a Pastoral Carcerária. Disse ainda que por uma questão de princípios não aturava a nossa “tendência marxista” e que é sim a favor da revista vexatória. Falou também de sua amizade com as autoridades do estado, e da boa relação com o pastor Estevão com quem iria trabalhar com a nova Coordenação de Pastoral Carcerária na Arquidiocese da Paraíba.
Vale salientar, que a atuação da Pastoral Carcerária no Estado da Paraíba, está emcomunhão com o que acontece no Brasil, sob a orientação de uma Coordenação Nacional reconhecida e referendada pela CNBB. Que sua missão primordial é: “Anunciar o Evangelho de Jesus Cristo às pessoas privadas de liberdade e zelar para que os direitos e a dignidade humana sejam garantidos no sistema prisional”. Atividades como visitas, oração, escuta, celebração, missa, diálogo com as direções, com juízes, governador,secretários, familiar de preso, questionamentos sobre as práticas abusivas do estado que estão presentes em todas as prisões, fazem parte da missão da Pastoral Carcerária.
A senhora Guiany Campos Coutinho, que estava compondo a Equipe de Coordenação Colegiada da Pastoral Carcerária da Arquidiocese, afastada verbalmente de suas atividades na Arquidiocese pelo arcebispo, está secretária da Pastoral Carcerária no Regional Nordeste 2está na Articulação Nacional da Pastoral Carcerária para a Questão da Saúde do Sistema Penitenciário e representa a Pastoral Carcerária do Brasil, no Comitê Técnico Inter setorial de Assessoramento e Acompanhamento da Política Nacional de Atenção Integral à Pessoa Privada de Liberdade no Sistema Prisional representando a Pastoral Carcerária Nacional, portanto, ela continua membro atuante da Pastoral Carcerária na Paraíba.
Quanto a mim, tenho atuação na Diocese de Guarabira, com o apoio do Bispo Diocesano,Dom Francisco de Assis Dantas de Lucena, no Regional Nordeste 2, com a rearticulação da Pastoral Carcerária e na articulação do estado.  Não tenho nenhuma interferência na Pastoral Carcerária da Arquidiocese da Paraíba. Não faço nenhuma visita em nome da Pastoral Carcerária da Arquidiocese da Paraíba, não acompanho visitas das equipesarquidiocesanas da Pastoral Carcerária e não integro a Equipe de Coordenação Colegiada da Pastoral Carcerária da Arquidiocese.
Vale salientar que este trabalho feito por esses longos anos é sem ônus para as diocesesda Província onde estamos à serviço, com exceção da minha diocese, a Diocese de Guarabira.








JOÃO BOSCO FRANCISCO DO NASCIMENTO, padre diocesano, incardinado na Diocese de Guarabira, ordenado dia 18 de fevereiro de 1989, com 25 anos de serviço prestado nas paroquias de Pirpirituba, Serra da Raiz, Guarabira, (Santo Antônio e Santíssima Trindade), Joao Pessoa (Virgem Mãe dos Pobres e Nossa Senhora de Fatima), Mari, Mulungu e Araçagi. Por um período de dez anos fiquei nomeado vigário geral da diocese entre outras varias funções pastorais. Atual presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos, articulador da pastoral carcerária no estado e no Regional e colaborador da Coordenação Nacional.

23 de dezembro de 2013

Vítimas da Prisão.



 

HEBERSON OLIVEIRA é um nome para não ser esquecido. É um brasileiro de Manaus.  Um pobre entre tantos que foi acusado e preso sem prova material e testemunhal que o incriminasse. Tudo depende do lugar social da pessoa. Os que praticam crimes comprovadamente conseguem evitar a prisão. O pobre, por ser suspeito, já tem motivo suficiente para ir à prisão.
Essa figura emblemática foi presa em novembro de 2003 e foi solto em maio de 2006. Dois anos e sete meses depois de preso, foi julgado e finalmente considerado inocente. Essa realidade de um longo tempo na condição de provisórios   está presente em todos os estados do Brasil.
Se a injustiça já não fosse suficiente, o estado brasileiro o matou, acabou com a vida desse brasileiro. Ele foi estuprado pelos xerifes da cadeia e contraiu o vírus da AIDS.
Ele diz: “Fui violentado lá dentro. Agora essa doença vai me acompanhar pelo resto da vida. Estou condenado à morte. A justiça roubou minha vida.”
A cena do estupro é algo muito comum e até facilitada para aqueles que são acusados de estupro. A justiça de fato lhe roubou a vida, foi a causadora de suas desgraças por lhe ter mantido na prisão de forma injusta, sem provas, é tanto que lhe absolveu sem provas, tarde demais. Ele é vítima também da falta de assistência do estado brasileiro que não cumpre com as obrigações em relação à dignidade do ser humano.
Esse brasileiro de 30 anos quando preso, anda se arrastando como se fosse um ancião, jogado nas ruas de sua cidade. Depressão, uso de drogas, morador de rua. É ex-presidiário e aidético. A justiça lhe fez assim. Ele é um produto da nossa justiça. Carrega um saco plástico com roupas sujas e objetos catados na rua. Vez por outra o mesmo aparece na casa de sua mãe mas retorna para o infinito sem a ajuda e a proteção de ninguém. Ele continua desprezado pela sociedade do seu tempo como os leprosos do tempo de Jesus.
Este fato está divulgado na internet e deve ser amplamente apresentado para que a sociedade como um todo perceba que de um lado é necessário que as punições para o crime sejam devidamente aplicadas dentro da lei, mas, por outro lado, sejam também corrigidos os inúmeros e graves erros que o estado brasileiro, com a justiça brasileira estão cometendo contra os pobres e jovens do nosso país não prisões que são masmorras e campos de concentração onde todos os tipos de atrocidade são cometidos entre pessoas detidas mas também por agentes do estado.
A sociedade precisa perceber que há uma propaganda enganosa assimilada por muitas pessoas que é imaginar que quanto mais prisão menos violência. A sociedade, de forma ingênua e ignorante se sente segura quando acontecem prisões.
A realidade é esta: quanto mais se prende mais a violência tem aumentado no país. A prisão ao contrário do que se pensa, ela deforma a pessoa e a torna muito mais preparada para o crime e para a violência. Quanto mais prisões mais insegurança nós teremos, até porque não existe nenhuma segurança nas prisões.  Quando existe uma rebelião, como todos sabem, a destruição da unidade é imensa. As construções mesmo novas são completamente inseguras. A construtora desviou os recursos e não executou o que estava no projeto e tudo fica como está. Na Paraíba, todas as unidades novas dos últimos anos estão dentro deste patrão de insegurança. Mesmo assim, a sociedade continua com a ilusão de que está tudo bem.
Ou o estado brasileiro cria uma política para o sistema penitenciário ou a realidade será esta por muitos anos.
pebosco@yahoo.com.br

19 de dezembro de 2013

NATAL

Dom Canísio Klaus

Bispo de Santa Cruz do Sul - RS

“Natal se aproxima, é tempo de amor; renasce a esperança de um mundo melhor”!
O verso acima faz parte de uma canção muito cantada pelas comunidades cristãs no tempo do Advento. Nos recorda que o tempo do Natal é tempo de amor. Tempo onde contemplamos o amor da Santíssima Trindade – o Pai, o Filho e o Espírito Santo – se abrindo para o amor humano.
Sem abandonar o seio da Santíssima Trindade, o Filho de Deus assume a natureza humana na pessoa de Jesus de Nazaré, para nos provar o grande amor que Deus tem para com a humanidade. A partir daí foi fácil para São João escrever às comunidades cristãs da Ásia Menor, que “quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor” (1Jo 4,8). E a prova está em que “não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou, e nos enviou o seu Filho como vítima expiatória por nossos pecados” (1Jo 4,10).
A centralidade da festa  do Natal é o encontro da divindade  com a humanidade. O Deus que é Amor vem ao encontro da humanidade, “esvaziando-se a si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens” (Fl 2,7). Por isso só acontece Natal onde a festa  tiver  a presença das manifestações do amor da família de Deus e da família humana. Onde Deus  está ausente, mesmo contando com a presença do Papai Noel, não acontece Natal.
Ao assumir a condição humana no seio de uma família, o próprio Deus escolheu e indicou a família como o melhor espaço para fazer acontecer o Natal. A partir dela formam-se os grupos familiares e as comunidades. Deus quis precisar da boa vontade e do acolhimento  da Família de Nazaré para nascer no meio de nós como o maior presente da humanidade. Por isso, os espaços privilegiados para celebrar o verdadeiro Natal do Senhor, são as famílias, os grupos familiares e as comunidades de fé.
Convido, pois, o povo diocesano que se deixe tocar pela mensagem central do Natal, acolhendo o Deus que vem como menino/criança. Vamos abrir as portas das nossas casas ao Deus que bate e pede licença para entrar, com o desejo de permanecer no meio de nós. Vamos dar asas ao amor, porque “quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele” (1Jo 4,16).
Desejo um feliz e abençoado Natal do Senhor  a todas as pessoas, famílias, grupos, comunidades e paróquias. Que em todos os recantos da Diocese se cante “Noite Feliz” e, unidos aos Anjos, entoemos “Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos homens de boa vontade”.
Feliz Natal!

NATAL


Estamos nas proximidades do Natal mais uma vez. Todos os anos a mesma data se repete na celebração do nascimento do menino Jesus. Desde o seu nascimento até os nossos dias a sua proposta de vida fica como algo ainda a desejar: um mundo segundo o desejo de Deus, conforme encontramos na criação quando Deus viu que tudo era bom.
O que nós celebramos não é aquilo que nós vivemos. Estamos aquém de um mundo segundo o desejo de Deus.
As divisões, as guerras, a violência, a fome, as doenças, o aborto, são realidades que afligem a humanidade em todos os lugares do mundo. Mesmo assim continuamos celebrando o Natal. Não conseguimos alcançar a grandeza do fato e transformá-lo em vida na construção de um mundo novo.
A questão prisional no mundo é símbolo da pratica de muitas injustiças cometidas e símbolo de morte para tantos. Um pernambucano ficou preso injustamente por 19 anos. O fato foi considerado pelo STF como o maior erro judicial da história do Brasil.
No Espirito Santo, homem fica preso por dois anos, vítima de uma série de erros da polícia e da justiça.
 Pedreiro fica preso injustamente por 5 meses após perder os documentos. Preso por engano. Preso por 30 anos nos Estados Unidos acusado injustamente por estupro é libertado. Trabalhador, batedor de Açaí, preso injustamente luta por liberdade.
Estas manchetes e tantas outras são facilmente encontradas e revelam a grave situação de injustiça pela qual passamos. Se 40 por cento da população brasileira detida é provisória, é um grave sinal de injustiça. Temos um país que prende mas é incapaz de administrar depois a situação.
Como entender situações dessa natureza? Pessoas presas injustamente e esquecidas nas prisões. Como podemos celebrar o Natal diante dessas situações? Como nos confraternizar? Como os responsáveis por situações dessa natureza vão à missa e ao culto?
A nossa fé precisa caminhar junto de nossas práticas e da nossa vida. Natal é festa da vida. Não podemos ser a favor de uma cultura de morte, defendê-la e alimentá-la.
Em recente mensagem o papa Francisco falou sobre o Natal com as seguintes palavras:
 “O Natal é “festa de confiança e esperança”, é preciso “reconhecer no rosto de nosso semelhante, sobretudo nos mais fracos e marginalizados, a imagem do filho de Deus feito homem (...)No Natal, Deus se manifesta não como alguém que está no alto e domina o universo, mas se agacha, abaixa até a Terra, humilde e pobre. Para sermos iguais a ele não temos que nos colocar acima dos demais, mas nos agachar, nos colocar a serviço, nos fazermos pequenos com os pequenos e pobres com os pobres”.
De fato, a grande incoerência da vida cristã é esta: que não somos capazes de perceber e reconhecer que no outro, independentemente de sua situação está Jesus, o mesmo que nasceu, o mesmo que morreu, o mesmo que o louvamos em nossos cultos.
É hipocrisia cristã, dizer-se pessoa cristã e se tornar pessoa que defende a destruição do ser humano, se colocando acima dele como diz o papa.
Por último, ainda diz o papa: “É uma coisa feia quando se vê um cristão que não quer se agachar, que não quer servir. Um cristão que se pavoneia é feio. Este não é cristão, é pagão. O cristão serve e se agacha”.
Que este tempo de Natal nos ajude a pensar que o mundo poderá ser melhor se cada pessoa abrir mãos do seu egoísmo e se aproximar da outra pessoa como sua irmã. Natal é isso! Simplesmente Deus quis se aproximar e se fazer um de nós. Basta que compreendamos e realizemos isso para que o nosso Natal seja verdadeiro.
pebosco@yahoo.com.br

18 de dezembro de 2013

DIA 10 DE DEZEMBRO

Temos inúmeras datas para serem comemoradas durante os 365 dias do ano. Mais uma que não podemos esquecê-la. Dia 10 de dezembro. Em 1948, depois da Segunda guerra Mundial, a ONU proclamou a Declaração Universal dos Direitos da Pessoa Humana. A data se tornou oficial em 1950. A Declaração Universal com 30 Artigos apresenta e expressa direitos básicos necessários para a vida e a dignidade do ser humano. Para além dos passos dados, temos ainda uma realidade profundamente desafiadora nesse campo a ser enfrentada e modificada na pratica e na consciência das pessoas. Quando se olha para a história do nosso país, por exemplo, se vê a escravidão como algo do passado, como historia do Brasil, como se hoje as condições da pessoa negra fosse totalmente outra. É bom lembrar que a população jovem, negra, está sendo assassinada e detida nas prisões, por ser negra. A luta de Nelson Mandela na África do Sul contra o apartheid é luta para os nossos dias num país que não é europeu, mas resultado da miscigenação de raças: brancos, negros e índios. A discriminação racial é algo muito palpável e está sempre chegando fatos dessa natureza nos tribunais, sem esquecer que a escravidão, sobretudo no Brasil tem varias formas e expressões: o trabalho escravo e a prisão. Quando se pensa os anos da ditadura militar, também se pensa a tortura como algo do passado. Aquele período que se estendeu de 1º de abril de 1964 até 15 de março de 1985. Hoje as Comissões da Memoria e Verdade estão por ai fazendo um levantamento da situação passada, como se ela hoje não mais existisse. No entanto em ambientes onde existem pessoas privadas de liberdade como abrigos, hospitais, casas de acolhida, delegacias e prisões, a tortura faz parte do dia a dia. Tanto física como psicológica e praticada por pessoas com a função de relar pela garantia e integridade física das mesmas. Na Ouvidoria de Policia, nas prisões e no Conselho já se ouviu inúmeros relatos de praticas de tortura contra pessoas que não podem se defender ou reagir. É na verdade, uma pratica criminosa do estado, na ação de seus agentes. Como é do nosso conhecimento, são os grupos vulneráveis que são as maiores vitimas da tortura e do desrespeito aos direitos fundamentais. Entre esses grupos estão as mulheres e as crianças que dentro de casa vivem a experiência da tortura e da discriminação social e familiar. Por causa dessa realidade que pode ser acrescida de tantos outros dados é que o dia 10 de dezembro não pode ser esquecido. Exatamente por isso que o Conselho Estadual de Direitos Humanos da Paraíba apresentou o relatório anual de atividades, mostrando que foram inúmeras as ações, apesar da falta de estrutura do mesmo, foi possível atuar em muitas frentes. O Conselho pautou a violência contra a mulher, segurança pública, moradia, questão indígena, ciganos e comunidade quilombola, transporte público, saúde e as violações de direitos em unidades prisionais, central de policia, internação de adolescentes e comunidades terapêuticas. O Conselho foi criado no estado para esta função, agrando ou não! Não se trata de caça às bruxas, mas de suscitar uma discussão e uma pratica que seja de inclusão social e de respeito aos direitos. Se o outro está sendo respeitado em determinada situação eu também serei se um dia também eu estiver naquela situação. A máxima de Jesus é: “Faça ao outro o que gostaria que também fizessem a você”. Assim os agradecimentos aos que fazem parte do nosso Conselho pelo empenho dispensado neste ano de 2013 sem esquecer Renato e Valdênia que se encontram ausentes. pebosco@yahoo.com.br

ADVENTO E NATAL

Já antes do Advento o comércio se antecipa e começa a propaganda em torno do Natal. Além do nascimento de Jesus e da Pascoa, nada se sabe de sua vida e, o que se sabe tem uma dimensão negativa em vista do consumo. Tudo circula em torno do comercio por causa do faturamento financeiro. Nenhum outro tempo é tão explorado como o tempo de final de ano. Para nós cristãos católicos, o ano litúrgico termina com a festa de Cristo Rei e, no domingo seguinte, inicia-se a primeira semana do advento, aquele tempo especial de preparação e de alegre expectativa para o Natal. A cor litúrgica é roxa, mas não tem o mesmo significado do tempo da quaresma que é muito penitencial. No advento se misturam elementos de penitência, mas em vista da alegre expectativa. No Ano A, já no primeiro Domingo, o apostolo Paulo na carta aos Romanos já apresenta esse tempo como algo que acontece em cada manha que nós acordamos, em vista da proximidade da salvação. Rom. 13. Uma grande riqueza aparece nas leituras bíblicas desse tempo, riqueza que não podemos perder de vista. O profeta Isaias, João Batista e Maria, são figuras que enchem o nosso coração de alegria, esperança e fé. Elementos que nos impulsionam para caminharmos sempre mais. Devemos procurar aproveitar cada momento desse tempo (o tempo é sempre único) para a nossa contemplação, mesmo sendo um tempo de muitas atividades, vale a pena nos depararmos com o presépio que relembra o maior acontecimento da Historia da humanidade. Na verdade o mundo está dividido em dois tempos: antes e depois de Cristo e, essa mudança, para nos cristãos é celebrada exatamente nesse momento cuja preparação nós iniciamos agora. Devemos ter o cuidado suficiente com a tentação do comercio para não comprarmos coisas que não precisamos e que não condizem com o tempo celebrado. No Natal celebramos e nos encontramos com o nosso Deus que se entrega completamente se dispondo a fazer-se um de nós com todas as semelhanças menos na condição de pecado. Aquele que nos criou à sua Imagem e Semelhança quis por um imenso amor fazer a nossa experiência através do Verbo que se faz carne. Jamais compreenderemos esse grande mistério: Maria também não o compreendeu, mas o aceitou. Assim também nós não temos noção do presente que a humanidade recebeu de Deus e que nós continuamos permanentemente sendo presentados em nossos dias. Portanto, a forma mais importante de viver esse mistério é que cada pessoa, se coloque diante dele, com a consciência de que somos tão importantes que Deus fez tudo isso por nós. Enquanto para muitas pessoas Deus não existe e se existe, Dele não se tem noticia, para nós Deus é tão presente e tão concreto que podemos tê-lo através do seu Filho até o fim dos tempos. Mateus 28,20. Assim, cada pessoa, na intimidade do seu coração e participando de sua comunidade, faça a sua preparação para o Natal do Senhor. Não deixe para amanha. Quando assim procedemos já descartamos o momento presente que não é apenas tempo, mas a nossa vida que passa. Quem puder não deixe de fazer ao menos uma manha ou uma tarde de reflexão por semana. Assim você poderá com mais tranquilidade vivenciar e saborear esse tempo de expectativa que Maria viveu antes do nascimento do nosso Salvador. pebosco@yahoo.com.br

NO SERTAO DA PARAIBA

Sertão do estado, cidade de Patos. Prisões de funcionários do sistema penitenciário. Nesta semana, uma rebelião. Aprendi e sei que é verdade. Presos só fazem rebelião quando a situação está para além de suportável. Uma tentativa de fuga acontece às escondidas e às vezes já acertada com algum funcionário ou segurança externa, mas a rebelião é um expor-se totalmente, portanto, significa arriscar a própria vida. A pessoa presa sabe que está cometendo uma falta grave, se arriscando e vai sofrer as consequências da rebelião. Por isso elas não são frequentes e normalmente são provocadas por algumas situações tipo um tratamento desumano coletivo que deixa a cadeia toda atingida e insatisfeita, exemplo: uma comida estragada; familiares humilhados na entrada da prisão; ausência do banho de sol; falta da assistência jurídica; violência física. Essas causas entre outras são geradoras de rebeliões. Como a estrutura de nossas prisões não oferecem nenhuma segurança há sempre a destruição do patrimônio. A estrutura física das prisões precisaria ser mais segura, mas isso só no projeto de construção. As construtoras desviam os recursos e fazem e fazem os piores serviços. Para não ir longe, o presidio regional de Guarabira fez uma construção no ano passado que pelas informações da direção custaram 300 mil reais e ficou pior do que a estrutura velha em termos de segurança, um VENGONHA para o gestor da pasta da Administração Penitenciaria. Falta total de gestão, inadmissível. Em Patos, na rebelião, pelas noticias um preso de Guarabira foi assassinado. Em recente conversa com um juiz da VEP, se falava exatamente dessa mentalidade distorcida das transferências nem sempre necessárias. Muitas vezes o juiz lá na sua comarca com uma cadeia pequena prefere não ficar com presos e transfere para os presídios grandes que já não suportam mais a quantidade de presos. O mesmo acontece com os diretores que em nome da falsa segurança vão jogando os problemas para terceiros. O que estaria fazendo um preso de Guarabira em Patos? Seria para ressocializar? Ou um castiga a mais? Sim, um castiga a mais para ele e para a família que não pode fazer as visitas. Nesse jogo a estrutura prisional é tão descumpridora de seus deveres ou tão criminosa quanto aqueles com quem ela lida. Existe uma preocupação no judiciário no sentido de que esse tipo de transferência sem fundados motivos sejam evitadas. Na capital do estado, a situação da mulher presa é preocupante. Em recente visita a uma maternidade, foi encontrada uma mulher que teve o filho e foi encontrada naquele mesmo dia algemada na cama pelo pé. Outra que foi ter a criança e ate mesmo na UTI estava algemada. A informação foi confirmada pela medica plantonista. Não sei se isso é uma meta da ressocialização em nosso estado. Uma mulher cirurgiada, com agentes de segurança ao seu lado fazendo a escolta ainda precisaria estar algema? Que zelo é esse? Não reclamem se reclamo, pois a SEAP está nos dando motivos de sobra para reclamar quando nos poderia dar motivos para elogiar na adoção de medidas humanizadas e humanizadoras. Questão penitenciaria não é só questão de recursos financeiros, mas de tratamento respeitoso e humano. Sabemos é verdade que existem agentes muito bons e com essa preocupação, mas que são ate perseguidos pelo bom comportamento quando deveriam ser elogiados e promovidos pelo bom serviço prestado. Na verdade a critica tem somente a finalidade de evitar o que nunca deveria acontecer: sofrimentos e mortes. Afinal, a prisão é a escravidão dos tempos modernos. Os negros de ontem são os mesmos de hoje. pebosco@yahoo.com.br

EU QUERO JUSTIÇA

Diante dos inúmeros casos de violência se tem escutado um grito: QUERO JUSTIÇA!! A justiça tem a sua estrutura muito complexa e podemos dizer feita de compartimentos: ela é federal, eleitoral, trabalhista, criminal, estadual, etc. O acesso à mesma não é tão difícil, mas o seu funcionamento tem um ritmo que a torna inviável para cumprir a sua missão. Existem muitas situações nas quais a pessoa morre e não tem o seu pedido atendido pela justiça. Ouvi de um magistrado que a estrutura do judiciário está totalmente defasada diante das exigências e do ritmo da sociedade. Quando o evangelho foi escrito, o próprio Jesus já recomendava que talvez fosse melhor fazer as pazes com o inimigo enquanto caminham para o tribunal. Chegando lá o juiz te entrega ao carcereiro e de lá não sairás enquanto não pagares o último centavo. Mateus 5, 20ss. Estas palavras parece terem sido ditas para os nossos dias. De fato ter esperança na justiça, de modo geral, salvas possíveis particularidades é algo muito difícil. Existem muitas experiências negativas e decepcionantes. Essa é a realidade geral, por exemplo, em nossas prisões. Uma pessoa fica dois anos presa para depois se ter uma posição sobre a sua inocência ou não. Em nosso estado um pernambucano ficou preso e esquecido; cumpriu 18 anos de prisão sem ter direito a nenhum beneficio, isto é, ficou o tempo integral em regime fechado. Em Roma a famosa estatua símbolo da justiça com os olhos vendados tem o sentido de dizer que a justiça não deve ver para fazer acepção de pessoas, mas lamentavelmente, na sociedade como um todo, existem as regalias para os que têm dinheiro, nome e posição social ao contrario dos pobres que são condenados por serem suspeitos. Por mais que se diga que não temos racismo no Brasil, em nosso estado, os negros são os que são assassinados em sua maioria. Mas voltando ao grito que se tem escutado, a pessoa só se interessa pela justiça quando ela sofre na pele a dor da perda de pessoas queridas. O mesmo também acontece com as prisões. Quando tenho alguém da família é que vou sentir o peso da prisão em minha vida. Quero justiça, tem o sentido do castigo e de punição em nossa sociedade. Quem está pedindo justiça recebe o quê da mesma? Nada! Realmente o estado não oferece nenhum apoio às vitimas da violência. Os serviços de assistência social dificilmente chegam para serem presença. Os vizinhos e familiares chegam apenas no momento e depois desaparecem após o velório e o sepultamento, ficando assim a família em total abandono. Na realidade, a família da vitima e do agressor ficam inimigas, num grande sofrimento e a justiça como está hoje, apenas pune que agride e nada mais acontece. Tudo, portanto, fica em torno da punição e do castigo por parte do estado, sem o acompanhamento dos serviços relacionados com a justiça. É por isso que hoje se tem colocado em pauta e em pratica uma justiça que procura restaurar as relações entre vitimas e agressores, pois sem isso, o circulo de violência permanece cada vez mais presente nas relações sociais. Não basta dizer eu não tenho raiva, eu perdoei. As exigências evangélicas dessa relação passam pela iniciativa de ir ao encontro ao encontro, para que a outra pessoa tenha a certeza de que o circulo da vingança e da violência foi quebrado. De fato, a reconciliação é mais importante do que o culto. Como dizia Santo Agostinho: “quem vive bem reza bem; quem reza bem vive bem”. Só vive bem e reza bem quem tem uma vida reconciliada com Deus e com o seu próximo. pebosco@yahoo.com.br

Resoscializar o Quê?

No Brasil as Secretarias de Estado que cuidam da questão prisional passaram a se chamar de Administração Penitenciaria. É que cuidavam também de outros serviços como cidadania e justiça. Praticamente todas elas estão falando em ressocialização e até denominaram um setor, com algumas pessoas para que cuidassem do referido serviço. É visível e notório, mas também lamentável que essas iniciativas tenham um cunho meramente politico e de marketing, pois os dados mais elementares indicam que o sistema como tal não consegue trazer mudanças na vida da pessoa presa. Alias as mudanças existem, mas são as piores possíveis. A pessoa que passa pela prisão carrega para resto da vida uma experiência de morte com sequelas jamais sanadas pelo grau de desumanidade presente nas prisões. Prender já é uma violência sem contar com a violência interna (entre presos) e a violência institucional (por parte do estado). Fora do ambiente prisional humano, qualquer outro animal tem mais dignidade e direitos sem os deveres que são inerentes só ao ser humano. No sistema prisional o estado massacra a todos. Nele, os funcionários também são vitimas em uma estrutura que só serve para alimentar a violência e a corrupção, mas são vitimas maiores: alguns dentre eles não estão ali para ajudar a pessoa presa a sair do mundo do crime, mas a trata-la com crueldade e desumanidade, pois o estado brasileiro ate hoje não decidiu para que quer os seus agentes. Se de um lado fala em ressocializar que é uma grande mentira, de outro lado todos os agentes então em função da chamada segurança que é outra grande mentira. As direções sabem que não há nenhuma segurança nessas unidades prisionais. Na verdade a comunidade carcerária não quer fugir. Alias, quer, mas prefere não sair. Então o que existe de fato são algumas ações nas secretarias ainda muito tímidas que atingem o mínimo das pessoas detidas e isso é divulgado. Exemplo: são 300 pessoas detidas, 30 estão na escola de forma muito precária. Se não tem espaço para abrigar é claro que não tem espaço para estudar. Não posso educar e transformar ou ajudar numa mudança de comportamentos se não existe nenhum recurso financeiro. Explicando melhor. Não há repasse de remédio para as unidades prisionais (é o mínimo possível); a constatação é do Doutor Carlos Neves, juiz da VEP de João Pessoa, que tem visitado as prisões no estado todo; não se faz nenhum serviço de manutenção, nem de uma lâmpada em uma cela; até colchão alguns diretores permitem que a família leve; também material de higiene pessoal e de limpeza, roupa, etc. Na realidade, existe uma despesa exorbitante com o sistema prisional e mesmo assim a família, além do sofrimento que passa ainda precisa ajudar na manutenção do sistema que lhe oprime. Outra grave situação do sistema é a situação do judiciário. Qual é a situação? A falta de estrutura que impede o funcionamento do mesmo; a falta de pessoal e o acumulo de processos; a mentalidade de determinados juízes que acham que apenas prender é a solução. A pessoa presa é vitima de uma grande injustiça. Ela fica por mais de um ano sem que o judiciário defina a sua situação. É por isso também que as unidades estão superlotadas. Não se consegue perceber que quanto mais se prende mais se fortalece uma grave situação social. O judiciário tem alimentado toda essa situação e não tem feito como deveria a sua parte, por razoes já alegadas. Além do mais, cada vez mais cresce a criminalidade com a punição dos mais fracos que são mantidos presos apenas como suspeitos e, em muitos casos, as provas foram forjadas nas delegacias sem que a pessoa tivesse o direito de se defender. Por onde andam as penas alternativas e as alternativas penais? O judiciário brasileiro ao que nos parece precisa repensar as formas de punir. pebosco@yahoo.com.br

8 de novembro de 2013

Vida

LEONARDO BOFF - A transfiguração na morte O dia dos mortos, dois de novembro, é sempre ocasião para pensarmos na morte. Trata-se de um tema existencial. Não se pode falar da morte de uma maneira exterior a nós mesmos, porque todos nós somos acompanhados por esta realidade que, segundo Freud, é a mais difícil de ser digerida pelo aparelho psíquico humano. Especialmente nossa cultura procura afastá-la, o mais possível, do horizonte pois ela nega todo seu projeto assentado sobre a vida material e seu desfrute etsi mors non daretur, como se ela não existisse. No entando, o sentido que damos à morte é o sentido que nós damos à vida. Se decidimos que a vida se resume entre o nascimento e a morte e esta detém a última palavra, então a morte ganha um sentido, diria, trágico, porque com ela tudo termina no pó cósmico. Mas se interpretarmos a morte como uma invenção da vida, como parte da vida, então não a morte mas a vida constitui a grande interrogação. Em termos evolutivos, sabemos que, atingido certo grau elevado de complexidade, ela irrompe como um imperativo cósmico, no dizer do prêmio Nobel de biologia Christian de Duve que escreveu uma das mais brilhantes biografias da vida sob o título Poeira Vital (1984). Mas ele mesmo assevera: podemos descrever as condições de seu surgimento, mas não podemos definir o que ela seja. Na minha percepção, a vida não é nem temporal, nem material, nem espiritual. A vida é simplesmente eterna. Ela se aninha em nós e, passado certo lapso temporal, ela segue seu curso pela eternidade afora. Nós não acabamos na morte. Transformamo-nos pela morte, pois ela representa a porta de ingresso ao mundo que não conhece a morte, onde não há o tempo mas só a eternidade. Consintam-me testemunhar duas experiências pessoais de morte, bem diversas da visão dramática que a nossa cultura nos legou. Venho da cultura espiritual franciscana. Nos meus quase 30 anos de frade, pude vivenciar a morte como São Francisco a vivenciou. A primeira experiência era aquela que, como frades, fazíamos toda sexta feira, às 19:30 da noite: “o exercício da boa morte”. Deitava-se na cama com hábito e tudo. Cada um se colocava diante de Deus e fazia um balanço de toda a sua vida, regredindo até onde a memória pudsse alcançar. Colocávamos tudo, à luz de Deus e aí, tranqüilamente, refletíamos sobre o porquê da vida e o porquê dos zigue-sagues deste mundo. No final, alguém recitava em voz alta no corredor o famoso salmo 50 do Miserere no qual o rei Davi suplicava o perdão a Deus de seus pecados. E também se proclamavam as consoladoras palavras da epístola de São João:“Se o teu coração te acusa, saiba que Deus é maior do que o teu coração”. Éramos, assim, educados para uma entrega total, um encontro face a face com a morte diante de Deus. Era um entregar-se confiante, como quem se sabe na palma da mão de Deus. Depois, íamos alegremente para a recreação, tomar algum refresco, jogar xadres ou simplesmente conversar. Esse exercício tinha como efeito um sentimento de grande libertação. A morte era vista como a irmã que nos abria a porta para a Casa do Pai. A outra experiência diz respeito ao dia da morte e do sepultamento de algum confrade. Quando morria alguém, fazia-se festa no convento, com recreação à noite com comes e bebes. O mesmo ocorria depois de seu sepultamento. Todos se reuniam e celebravam a passagem, a páscoa e o natal, o vere dies natalis (o verdadeiro dia do nascimento) do falecido. Pensava-se: ele na vida foi, aos poucos, nascendo e nascendo até acabar de nascer em Deus. Por isso havia festa no céu e na terra. Esse rito é sagrado e celebrado em todos os conventos franciscanos. O frade que deixou esse mundo, entrava na comunhão dos santos, está vivo, não é um ausente, apenas um invisível. Há celebração mais digna da morte do que esta inventada por São Francisco de Assis que chamava a todos os seres de irmãos e irmãs e também a morte de irmã? A percepção da morte é outra. As pessoas são induzidas a conviver com a morte, não como uma bruxa que vem e arrebata a vida, mas como a irmã que vem abrir a porta para um nível mais alto de vida em Deus. Cada cultura tem a sua interpretação da morte. Estive há tempos entre os Mapuches, no sul da Patagônia argentina, falando com os lomkos, os sábios da tribo. Eles têm bem outra compreensão da morte. A morte significa passar para o outro lado, para o lado onde estão os anciãos. Não é abandonar a vida, é deixar seu lado visível para entrar no lado invisível e conviver com os anciãos. De lá acompanham as famílias, os entes queridos e outros próximos, iluminando-os. A morte não tem nenhuma dramaticidade. Ela pertence à vida, é o seu outro lado. Poderíamos passar por várias outras culturas para conhecer-lhes o sentido da vida e da morte. Mas fiquemos no nosso tempo moderno. Há um filósofo que trabalhou positivamente o tema da morte: Martin Heidegger. Em sua analítica existencial afirma que a condição humana, em grau zero, é a de que somos um ser no mundo, este não como lugar geográfico, mas como o conjunto das relações que nos permitem produzir e reproduzir a vida. A condition humaine é estar no mundo com os outros, cheios de cuidados e abertos para a morte. A morte é vista não como uma tragédia e sim como a derradeira expressão da liberdade humana, enquanto o último ato de entrega. Essa entrega sem resto abre a possibilidade para um mergulho total na realidade e no Ser. É uma espécie de volta ao seio de onde viemos como entes mas que buscam o Ser. E finalmente, ao morrer, somos acolhidos pelo Ser. E aí já não falamos porque não precisamos mais de palavras. É o puro viver pela alegria de viver e de ser no Ser. Para o homem religioso, este Ser não é outro senão o Supremo Ser, o Deus vivo que nós dá a plenitude da vida. Leonardo Boff escreveu Vida para além da morte, Vozes 2012. Postado por BLOG DE UM SEM-MÍDIA às 00:59 Marcadores: Boff